domingo, março 06, 2005

O palanque eletrônico (2)

Pra quem não lê a coluna, ou seja, todo mundo, informo que este aventureiro e usurpador do trabalho alheio está oferecendo suas virtudes marqueteiras aos candidatos a prefeito. Na última edição os palpites ficaram restritos ao ninho tucano. Tenente Fernandes e Plínio, modéstia de lado, foram agraciados com geniais sacadas publicitárias.
Não quero ser acusado de tucana tendenciosidade, por isso estendo meu poder propagandístico aos outros candidatos: Vick Nholla e João Otávio.
Não tem experiência administrativa, padece de alto índice de rejeição e sempre morre na praia: é o que dizem de Vick nas entendidas rodas da cidade. Sugiro ao candidato que se apodere do bordão malufista de “tocador de obras”. A imagem: numa grande área livre, o candidato, usando capacete de operário e roupa despojada, conversa com o mestre-de-obras analisando uma planta arquitetônica; ao fundo máquinas de terraplenagem e peões devidamente encapacetados trabalhando freneticamente. Vez ou outra, Vick conduz o mestre pelo braço mostrando ao encarregedo que “ali” erguer-se-ão vigas e pilares, enfim, clichê puro de um empreendedor que sabe o que está falando. O postulante, todos sabem, é homônimo de um poderoso ungüento que desobstrui as vias respiratórias. A animação gráfica seria interessante pra trabalhar com a seguinte analogia: o muco catarrento, repulsivo e renitente, simbolizaria as mazelas da cidade. O postulante devidamente paramentado de SuperVick, munido de portentosa ferramenta de sucção, combateria incansavelmente a gosma esverdeada que tanto atravanca o progresso municipal. Enquanto nosso super-herói trabalha com moderno sugador, os adversários seriam satirizados utilizando prosaicos lencinhos. “Respira, São João”: este slogan sustentaria uma lata de Vick Vaporub com a foto do candidato no rótulo.
João Otávio é acadêmico, elitista e distante das massas: é o que brada a voz das ruas. A tradição política da família tem que ser capitalizada a seu favor: num filminho em preto-e-branco o vovô prefeito senta o netinho no seu colo e ensina num tom meloso: “Tavinho, querido, o vovô está sendo o melhor prefeito que nossa cidade já teve. Hoje você é um menininho, mas um dia vai crescer e se tornar um homem. Um grande homem. Tenho certeza que você não vai deixar a tradição política da nossa família morrer e será um prefeito tão bom quanto o vovô”. Tavinho concorda: “É o que eu quero, vovô. Fazer com que as pessoas sejam felizes e que São João seja cada vez mais um cantinho bom pra se viver”. O vovô sorri orgulhoso e balança a cabeça assentindo; coloca o garoto no chão e dá umas palmadinhas na bunda pra que ele, saltitante, volte a brincar. A acusação de pouca afinidade com as massas seria rechaçada com a seguinte galhofa: João Otávio, em close-up, vociferando indignado, “aqueles pássaros bicudos eriçam as plumas pra dizer que eu não ligo pras massas”. Vira-se para a câmera dois e prossegue com convicção, quase gritando. “Mentira”. A imagem se abre lentamente mostrando Tavinho sentado a frente de um belo prato de spaghetti ao sugo. Dá uma garfada e declara sorrindo, num tom bem calmo e de boca cheia: “Adoro as massas”. Ergue uma taça de tinto e arremata com o bordão-brinde: “Saúde, São João”.