O Escriba
Lauro Augusto Borges é bancário por opção e jornalista por diversão. Seu escasso tempo livre é usado pra rabiscar umas abusadas pretensões lítero-jornalísticas. O vaidoso gosta de reverberar suas infames linhas. Nos últimos anos o escriba viu sua lavra publicada em cinco veículos, Gazeta de São João, O Município, Edição Extra, O Repórter e Correio Sanjoanense —nestes três últimos assinando coluna fixa. Este weblog acolhe uma pequena coletânea das 180 crônicas publicadas.
Domingo, Março 06, 2005
Desterraram o escriba!
Homem de decisões solitárias, o prefeito Teixeirinha chamou o seu “conselho de sábios” pra resolver uma questão que o abespinhava por demais.
O alcaide espumava ira contra um colunista atrevido que usa suas letras pra fazer troça com a administração municipal.
No suntuoso salão de reuniões, assessor de imprensa, vice-prefeito e chefe de gabinete, testemunhavam a fúria do cacique e tentavam conter a sua mão pesada.
As veias saltadas e os socos na mesa revelavam o quão duro seria deter a obsessão do homem em proscrever o escriba atirado.
Nos porões da prefeitura, um certo bajulador jurídico descobriu um decreto municipal que remonta aos anos 70. Esta excrescência legal reza que: “o cidadão deste canto crepuscular que ousar perpetrar pândegas e galhofas com a figura do alcaide será degredado dos limítrofes municipais”.
Teixeirinha, enfurecido:
—Tudo tem limite... este moleque já ultrapassou o limite do aceitável. Não passa mês sem que ele use aquele jornaleco oposicionista pra atacar o meu governo. Falem o que quiserem, não me importo, com uma canetada eu lanço mão do decreto “pé-na-bunda” e mando este infeliz zombetear lá em Aguaí.
Assessor de imprensa, ponderando:
—Esquece isso, chefe... o cara é ruim, tem um texto medíocre, credibilidade zero e só fogueteia no jornal pra ganhar uns minutinhos de fama. Não gasta vela com defunto de quinta. Expulsando o infeliz, o senhor vai transformar um datilógrafo ordinário em mártir da liberdade de imprensa. E, no mais chefe, vamos e venhamos, Aguaí é uma pena muito dura para o coitado.
Vice-prefeito, pra variar, sorrindo:
—O Dudu tem razão, chefe. Concordo com ele e digo mais: entrar em litígio com a imprensa vai fazer minha candidatura virar água. Já não estamos lá essas coisas, brigar com este tresloucado pirotécnico só vai nos empurrar ladeira abaixo, se é que é possível descer mais... Aguaí eu também acho dose pra leão... ninguém merece... se quer punir, manda dar uma descarga 220 nos bagos e já tá bom.
Chefe de gabinete, meditando:
—Vamos fechar os olhos (acende um incenso e bota uma música zen), mentalizar coisas boas, trazer energia positiva pra esse ambiente carregado de negatividade... vamos plantar no nosso inconsciente a certeza da nossa fulgurante beleza e, humildes, rezemos pra esses feios pobres de alma.
Teixeirinha, ainda iracundo:
—Traidores, covardes, macumbeiros, isso é o que vocês são... ponham-se daqui pra fora que eu vou ligar pro meu primo Cassinho... ele sim é bom conselheiro e tem colhões pra esmagar estes babacas subversivos.
p.s. Amargurado e desterrado, o escriba se asilou em Aguaí. Foi visto recentemente afogando suas mágoas num inferninho beira de estrada. Consta que sua pena nunca mais lavrou letra alguma.
Era uma vez um ônibus multicolorido...
Bar Teatro, Cine Avenida, Bar Canecão, Casa Tupi, entre tantos outros, foram ícones do comércio sanjoanense que durante muitos anos serviram nossa população. Estes estabelecimentos sucumbiram ao mercado hipercompetitivo e/ou má administração e hoje apenas habitam nossa memória.
A lógica cruel e fria dos números e índices estatísticos da contabilidade empresarial feriu mortalmente mais um de nossos símbolos. Estamos perdendo o “Expressinho”.
A venda do Expresso São João é mais um golpe na memória e história da nossa cidade.
Durante décadas milhares e milhares de sanjoanenses foram transportados pelos veículos multicoloridos da estimada empresa.
O bom atendimento e um corpo de funcionários muito gentil sempre foi característica marcante do “Expressinho”. Em viagens à São Paulo sempre acelerei meus compromissos para não perder o último ônibus do dia. Enfrentar a impessoalidade germânica e o desinfetante “tutti-frutti” do Cometa era, e ainda é, um martírio que, quando posso, tento evitar.
No ESJ somos gente, em outras empresas, carga.
Qual sanjoanense não sente (ou sentia?) uma ponta de orgulho ao cruzar com o “Expressinho” na Bandeirantes, Marginais e afins????
Sempre brinquei com amigos que ao adentrar os ônibus do ESJ, independente do local geográfico, estávamos em território sanjoanense.
Reencontrar velhas amizades que trabalham ou estudam na capital é (ou era?) fato corriqueiro e sempre agradável aos passageiros da querida empresa. O compartimento de passageiros dos ônibus do ESJ é (ou era?) a extensão da sala de estar de muitos sanjoanenses.
Os passageiros habituais com certeza vão sentir muito, mas sem sombra de dúvida, o nosso patrimônio histórico será o mais lesado.
A empresa compradora, num gesto de boa vontade e respeito à nossa memória, bem que poderia manter a pintura característica nos carros. Mais ainda, deveria a todo custo preservar a cortesia e o calor humano que sempre norteou a relação empresa/passageiros. Acho que não é pedir muito.
O nosso povo, com certeza, aplaudiria de pé.
Se a nova empresa se mostrar insensível aos nossos apelos, despedimo-nos com o peito apertado:
— Expressinho”, boa viagem até nunca mais!!!!!!
Dois mundos
O leito carroçável da rua Ademar de Barros aparta dois mundos. Separadas por uns poucos metros de massa asfáltica, coexistem, por enquanto, realidades distintas. A proximidade entre os ambientes é só física. Conceitualmente, eles são separados por uma colossal distância.
De um lado, o grande supermercado, um trator da economia moderna, um ícone da realidade apressada, e gelada, dos centros urbanos. Corredores exageradamente iluminados, e indiferentes, com aquelas insensíveis luzes brancas. Funcionários com aquela solicitude forçada, aquele sorriso impessoal, e frio, de comercial de creme dental. O recinto é estupidamente limpo, com uma assepsia de irritar.
Na seção de promoções-relâmpago, um rapaz com voz de locutor de FM berra num microfone sem fio piadinhas bobocas pra atrair consumidores dispostos a comprar lazanhas congeladas que estão no limite do prazo de validade. O moço é esforçado, brinca com as pessoas tentando humanizar o ambiente. Inútil, naquele espaço de consumo a condição humana é secundária. O homem é preterido por leitores óticos, balanças digitais e códigos de barras.
No escritório refrigerado, o empresário estressado, com o laptop plugado em sites de indicadores econômicos, grita ao telefone para o gerente dizendo que as vendas precisam subir, caso contrário, ele ameaça, cabeças vão rolar. No economês moderno é a chamada “reengenharia no corpo funcional”.
Atravessar a rua é voltar cinqüenta anos no tempo.
Do outro lado, o velho empório de secos e molhados, um dinossauro do comércio contemporâneo. O local tem poucos watts de luz que parecem menos ainda porque as lâmpadas são cobertas por uma grossa camada de poeira. O chão é fosco, áspero, revestido por uma cerâmica extinta quando João Paulo II ainda era um reles coroinha. As paredes não vêem tinta desde a Copa de 1970. No teto, penduradas, teias de aranha disputam espaço com gomos de lingüiça caseira. Saborosas esferas de queijo meia cura fazem a alegria das obesas ratazanas que infestam o armazém. Gaiolas, penicos e rolos de fumo de corda completam o cenário anos 50.
Atrás do balcão de madeira corroído pelos cupins, seu Amaro, numa antipatia sincera, cansada, trazendo no corpo marcas de sete décadas levando bordoadas da vida.
O septuagenário comerciante empunha o lápis de ponta grossa e faz, no papel amarelecido, contas e mais contas.
Contas que podem adiar por breve tempo o inexorável dia em que as velhas portas enferrujadas serão baixadas pra nunca mais serem levantadas.
p.s. na crônica acima, seu Amaro foi claramente inspirado no seu João Camargo, o popular Camarguinho, que durante décadas resistiu, com seu empório, aos ventos da modernidade. Ao que consta, o velho armazém está passando por reformas. Camarguinho, morto dias atrás, talvez não tenha suportado a contemporaneidade que urge em alvejar àquelas paredes pardas. Com o perdão do trocadilho, fica o Fica-Fica, como o último estandarte do comércio romântico da não menos romântica, e quase toda desfigurada, rua Ademar de Barros.
Um disparo na burrice
Causa-me repugnância, mas não surpresa, as opiniões do sr. Acacio Vaz de Lima Filho acerca das campanhas em prol do desarmamento da população.
Não surpreende ninguém que este senhor, que tem pendores totalitários, cacoetes fascistas e uma personalidade truculenta, defenda uma escalada armamentista por parte dos cidadãos de bem.
Eu, ao contrário do sr. Acacio que gosta de fogo e pólvora, prefiro “guerrear” com palavras para contestar a profusão de imbecilidades que este ilustre advogado despejou nos leitores da Gazeta. Relutei em polemizar com ele, mas uma profunda indignação compeliu-me a combater este ideário bélico.
A mídia não cansa de noticiar mortes de pessoas, muitas vezes crianças, que se acidentaram com armas de fogo. Esta proliferação de armas, pregada pelo articulista, seria institucionalizar a bárbarie e fazer do país uma versão tropical do velho oeste americano. O senhor Acacio deve ser fã incondicional dos filmes de faroeste e quer fazer ficção virar realidade. Seria cômico se não fosse trágico.
A sociedade democrática e civilizada tem mecanismos institucionais para combater a criminalidade. Se estes mecanismos não funcionam, e na maioria das vezes esta é a realidade, a cidadania organizada deve reagir pacificamente para mudar este estado de coisas. Burrice das grandes é combater um mal com outro ainda pior.
Por este raciocínio, então, já que o sistema de saúde está falido, a população deve se equipar e começar a fazer cirurgias na mesa da cozinha.
O advogado “bom de gatilho” quer fazer crer que um simples treinamento deixaria o cidadão apto a manusear armas de fogo. Esquece-se, ou não sabe, o articulista que a arma seria utilizada em situações que a pessoa estaria com o seu estado emocional alterado e, com este componete psíquico, a chance de fazer besteira é muito grande.
Vejamos o exemplo dos EUA, a sociedade mais armada do mundo, onde a conservadora classe média monta verdadeiros arsenais dentro das casas e facilita a ocorrência de tragédias como, por exemplo, a da escola Columbine, no estado do Colorado.
Esta obsessão pelo uso de armas faz do “serial killer” uma instituição nacional nos EUA. Por acaso, o senhor Acacio quer que tenhamos uma versão tupiniquim destes abomináveis personagens: o “serial jagunço”???
O ordenamento jurídico ao excluir a legítima defesa do ilícito penal, consagra o direito do cidadão em defender-se. Mas deste uso extremo e muito raro até a banalização da auto-defesa, via armas de fogo, como vocifera o articulista, existe uma enorme distância.
O uso de armas deve ficar restrito às polícias e Forças Armadas. Qualquer intenção de estender este uso à população deve ser rechaçado pela pacífica e esmagadora maioria da população.
No mais, democraticamente aceitemos que Acacio Vaz de Lima, Erasmo Dias, Conte Lopes, Jair Bolsonaro e Afanasio Jazadji (credo, que turminha!!) gritem a vontade o seu manifesto direitista e medieval.
Disparos são aceitáveis, desde que verbais. A paz, a democracia e o Estado de Direito agradecem.
Tucanices de um vice arrependido
Nos bastidores palacianos deste pequeno reino de verdes montanhas e majestosos crepúsculos, corre o boato que os monarcas estão sendo importunados por sátiras em forma de crônica. Dizem, ainda, os rumores, que as linhas reproduzidas abaixo não foram publicadas em outro veículo da corte por razões alheias à vontade do autor.
Para que a entourage do palácio e os baba-ovos de sempre não pensem mal dos soberanos e estes se vejam obrigados virem a público publicando desmentidos e esclarecimentos, o autor destas profanas escrituras faz questão de frisar a natureza ficcional das mesmas.
À crônica, então, platéia democrática de maltrapilhos membros da plebe rude e ostentosos medalhões da burguesia:
“O morde-assopra já está virando rotina na tucanagem graduada desta Sanja de belos crepúsculos.
Vejam se não tenho razão, incautos leitores.
Refestelados no conforto de seus lares e embalados por muitas doses de drinques alcoólicos, os tucanos de cúpula desatam o vernáculo e, em arroubos de nítida franqueza, metralham palavras pra todos os lados. Com a pontaria pouco calibrada, recebem uma saraivada de críticas do eleitorado e, arrependidos, percebem que os tiros acertaram seus próprios pés.
Desta feita, o vice-prefeito Plínio Sinete que, apreensivo com a repercussão da entrevista publicada semanas atrás, envia uma retratação, ou, como dito no primeiro parágrafo, um assopro pra tentar atenuar o ardor das mordidas.
Meio a contragosto mas respeitando um princípio basilar do bom jornalismo, este rabiscador, que de jornalista não tem nada, cede espaço para a mensagem do “number two”:
“Querido Lauro, em nosso bate-papo, publicado outro dia num jornal desta cidade, fiz uma série de declarações equivocadas. Estes equívocos, devo admitir, foram frutos da alta ingestão de Martini. Os absurdos ali contidos foram emitidos por um homem em estado de torpor etílico. Peço ao povo que releve os impropérios e aceite minhas desculpas.
Quando você me indagou sobre o trabalho do vice-prefeito, em nenhum momento eu quis dizer que vice não faz nada de efetivo para a cidade. O quê realmente eu quis dizer, e esta é a pura expressão da verdade, é que vice vive em estado permanente de ócio, só tendo esta enfadonha rotina quebrada por solenidades festivas carentes de importância para o desenvolvimento do município.
Em outro momento eu disse que o Laércio é muito centralizador e aceita poucos palpites. Meu Deus, o que a bebida faz com as pessoas!!!! O prefeito não é nada disso. Ele simplesmente tem pendores por decisões solitárias e é avesso a qualquer opinião que não saia do seu próprio umbigo. Era isso o quê devia ser dito e não aquela bobagem publicada.
Esta minha boca maldita também acusou o alcaide de ser um viciado em trabalho e de ter a bunda grudada na cadeira. De novo falei asneira. Laércio, na verdade, tem uma compulsão doentia pra exercer a função laboral de chefe do Executivo sanjoanense. Quanto à bunda grudada faz-se necessário corrigir que suas nádegas não estão grudadas. Elas estão é aderidas ininterruptamente ao assento de trabalho do gabinete.
Pra finalizar este mea culpa, na resposta sobre a origem do meu sobrenome, pode ter passado uma falsa imagem de preconceito contra os homossexuais quando eu brinquei que Sininho era coisa de boiola, de fada de Walt Disney. Caramba!!! Como eu posso ser preconceituoso se tenho tantos amigos gays?! Inclusive meu mordomo, o Bonilha, é pederasta assumido. Pra que não fique no ar qualquer dúvida sobre esta questão, eu e o Laércio nos comprometemos, desde já, a desfilar na avenida Paulista, na próxima Parada Gay, fantasiados de Batman e Robin.
Que fique também bem claro, somos heteros convictos e este desfile bem humorado será só em solidariedade à causa das minorias. Estamos apoiando e não aderindo.
Certo da verdade restabelecida, desejo a você e seus leitores um 2002 repleto de sucesso.
Um grande abraço, Plínio Sinete”
Sinais
Mestre Aurélio, o papa do vernáculo, define o vocábulo sinal como: “aquilo que serve de advertência, ou que possibilita conhecer, reconhecer ou prever alguma coisa; demonstração exterior de um pensamento ou de uma intenção.”
Os mais variados sinais são cotidianamente jogados na nossa cara. Uns têm a percepção debilitada e não percebem; outros entendem o recado e manifestam o desejo de agir, de mudar; outros, ainda, têm a nítida compreensão do sinalizado, mas, numa inerte má-fé, se omitem.
No Globo
Os violentos conflitos nas ruas de Gênova, durante a reunião do G-7, são claríssimos sinais de que há algo de muito errado com esta política econômica massacrante das grandes nações capitalistas. Não sou louco de renegar o capitalismo, mas deploro este viés do sistema em que os hegemônicos fortes ficam cada vez mais fortes à custa da miséria dos pobres subdesenvolvidos.
O sangue do italiano Carlo Giuliani é um sinal vermelho aos governantes dos países dominadores. O mundo deve temer muito as conseqüências do desrespeito à esta advertência.
Quem viver, verá.
Na Terra Brasilis
As “barbalhices” na Câmara Alta do Parlamento brasileiro emitem vários sinais. Dentre eles, destaco dois:
Um. A roubalheira, desde que o mundo é mundo, sempre existiu no Legislativo tapuia. Sempre incomodou aquele perfume de carniça exalado do Planalto Central. A diferença é que, agora, identificamos claramente a origem do mau cheiro e, com o voto e a pressão popular, podemos remover os apêndices fétidos e proporcionar um ar mais respirável à capital federal.
Dois. Para brecar a fome de poder do nefasto ACM, o presidente FHC jogou toda a máquina do governo para instalar o picareta Barbalho no melhor gabinete do Senado. Trocou seis por meia-dúzia e deu com os burros n’água. Teria feito melhor se apoiasse a figura íntegra do senador Jeferson Peres.
Na Província
Um aeroporto milionário contrastando com um Distrito Industrial capenga sinalizam distorções nas prioridades do reinado tucano deste canto de belos crepúsculos.
Entre a masturbação sociológica de acreditar que o progresso vem pelos ares, prefiro a crença num pragmatismo pé-no-chão, onde desenvolvimento econômico e empregos sejam aspirações mais palpáveis e atingíveis em curto prazo.
Questão de prioridade.
No meu Ninho
Sinais em profusão no habitat deste escriba.
A mulher que me atura há doze anos faz cara feia e sinaliza que devo desligar o micro para economizar energia.
Meu estômago ronca num clamor inequívoco para supri-lo com nutrientes sólidos.
Minhas pálpebras pesam compelindo-me a mergulhar no leito e dormir o repousante sono dos justos.
Caros leitores, ainda tenho um fiapo de juízo e vou respeitar esta convergência de sinais para concluir a crônica.
Até o próximo sábado se o Editor Bolinha não sinalizar para que cesse estas pífias bobagens.
Sanjatur
Leio por aí que um dos filhos de Lula convidou sua turma de amigos adolescentes pra uns dias de férias em Brasília.
O recreio da molecada, patrocinado pelo erário, teve vôo suntuoso em avião da FAB, estadia nababesca no Alvorada, churrasco picanhento na Granja do Torto, passeio de lancha no Paranoá, mergulhos acrobáticos nas piscinas do poder e visita turística aos gabinetes do Planalto.
Longe de mim embarcar no oba-oba maldoso da imprensa marrom, que viu uma utilização indevida dos aparelhos públicos. Lulinha e sua prole estão embriagados com as mordomias palacianas e não é pecado que compartilhem com os seus estas benesses.
Cá na província crepuscular consta que o prefeito também tem um filho adolescente. O escriba sabe, ainda, que o clã do Nelsinho não é dado a deslumbramentos ‘nouveau riche’. De qualquer forma, austeridade à parte, ninguém está livre de ‘cinco minutos de bobeira’. E se a bobeira acometer a família do Turquinho Nicolau, a coluna desde já apresenta um rol dos possíveis passeios. A conferir:
O transporte dos jovens seria feito num velho ônibus do Expressinho São João. A lataria do veículo, claro, estaria revestida com a histórica pintura multicolorida. Já o interior do busão seria todo remodelado: frigobar carregado, poltronas de couro e videogames de última geração recheariam o coletivo dos Crepúsculos.
A meninada seria hospedada no Casarão. Óbvio que esta hospedagem não seria pelas deliciosas pizzas lá servidas. Gente!, que banho de história, a turistada juvenil dormiria na sacrossanta ex-mansão da Beloca.
Bacana demais também seria o roteiro gastronômico. Paradas obrigatórias pra degustação: no Bar do Pitarelo e seu apetitoso passado, na Praça Zé Pires para o quibe do Jacob e as guloseimas da padaria da dona Elza, na Dom Pedro II para o inigualável sorvete de macaúba. O city-tour calórico passaria, ainda, pelos locais dos já finados Bar do Formiga e Bar Canecão, onde o guia louvaria em prosa e verso os lendários baurus destas extintas tabernas.
Se na corte a molecada se divertiu com lanchas velozes no lago Paranoá, cá nesta Sanja a distração se daria em prosaicos passeios a remo sobre as águas turvas do caudaloso Jaguari. Este singrar seria conduzido pelo professor João Scanapiecco que, com sua habitual sapiência, despejaria sobre todos lembranças de fatos e boatos sobre o rio.
Os trampolins da Esportiva seriam visitados sob a batuta do professor-artista Marcondes que, entre braçadas e mergulhos, prosearia sobre o glorioso passado da equipe de natação dos Tigres da Mogiana.
Também não poderiam faltar incursões pelo verdejante caminho da Serra da Paulista, audição da banda dominical na praça Joaquim José e uma noitada fervilhante nos bailões rurais do Noca e/ou do Chico Cachoeira.
O augusto programa pode, todavia, não agradar à patota dos amigos do filho do rei. Se isso acontecer, o escriba se compromete a franquear a casa 208 da Tereziano Vallim, donde ninguém sai emocionalmente imune às histórias contadas sobre a vó Fiuca e suas incríveis peripécias de viagens pelos rincões desta pátria Brasil.
Pra inglês ver
Ouço por aí que súditos de Elizabeth 2ª vão baixar nesta Sanja de belos e majestosos crepúsculos. Dizem que os gringos vêm com os bolsos abarrotados de dinheiro pra investir numa indústria de equipamentos cirúrgicos.
O prefeito, ao que parece, agiu rápido e garantiu aos ingleses benesses tributárias a perder de vista. Investimentos nesta terra árida de novidades têm que ser bem agradecidos.
Como não só de pão vive o homem, arvoro-me a dar algumas sugestões pra que nossos anglo-visitantes tenham um fiapo de sua pátria neste belo canto do interior paulista:
Comecemos por este Correio. Bem podia o editor Reberson criar um suplemento, em formato tablóide, óbvio, em que o sensacionalismo gritaria em cores berrantes com um farto recheio de mexericos e alcovitagens envolvendo altos figurões do tucanato local. Alguma coisa como o The Sun da Mantiqueira ou o Daily Mirror Caipira.
Um bom pub também não pode faltar. Nossos amigos sorveriam hectolitros de loura gelada num repaginado Bar do Foguinho, na melhor tradição britânica do fish and chips. Fish dos bons é desnecessário dizer que o Foguinho tem de sobra. As chips podem vir da vizinha Vargem, que tem batata da melhor qualidade. E, convenhamos, o Foguinho com aquela barba ruiva é a cara de qualquer barman londrino. Melhor que o boteco do Foguinho só o Little Fire´s Pub.
Já que nossos legisladores não se livram da sanha de erguer um prédio novo, poderia ser encomendado ao Faustinho Fontão um projeto-réplica do Parlamento britânico. Um decreto municipal aboliria esta nomenclatura provinciana de vereador ou edil. Câmara dos Lordes, seria o nome da casa legislativa sanjoanense.
Caso este surto de nobreza contamine o Executivo, uma questão urge em ser definida: se na monarquia inexiste a figura do vice-rei, como chamaríamos o vice-prefeito? Acaloradas discussões já sugerem vários títulos, tais como Duque de Arezzo, Conde da Sabesp, Barão de Quinête, Visconde da Mantiqueira, entre outros.
Inglês adora essa coisa de honraria e condecoração. Figuras destacadas da comunidade receberiam a medalha da Ordem do Cavaleiro do Jaguari. O ocioso campo do Palmeirinha passaria por uma reforma pra abrigar animadas rodadas de críquete. Seria o Palmeiras Cricket Club.
A Santa Cruz poderia também colaborar com a bajulação. A linha DER-Pratinha seria servida por um imponente busão vermelho de dois andares. Um luxo.
E, colaborando com a paciência do leitor, este escriba aqui cessa as parvoíces fazendo votos que este novo empreendimento seja, de fato, alavancador de desenvolvimento e gerador de empregos, e não pura pirotecnia dos poderosos com suas vãs promessas e colchões nada macios.
Por Júpiter!
Ano novo, velhas inquietações.
O escriba folga com 2005, brinda com espumante nacional, mas não perde a mania de afligir-se com sua Sanja crepuscular.
Avaliem o absurdo da situação, caros leitores, e vejam se o colunista não tem razão em padecer de pensamentos tormentosos.
O tucano que se foi encerrou o seu mandato batendo em revoada à meia-noite do dia 31; o Turquinho que chega foi empossado e dançou ‘Havanagila’ às 17 horas do dia primeiro.
Por Júpiter! (com a licença do Cony), esta província foi por eternos 1.020 minutos uma nau sem rumo. Nada decorreu de mais grave deste buraco institucional. Pura sorte, pois a acefalia temporária poderia ter imerso esta Sanja na maior crise de sua história.
Hipóteses do infortúnio:
1- Ribeirinhos do Jaguari contam que as águas do rio têm tido ‘atitudes estranhas’. Não consta que água tenha atitude. Em todo caso, depois do tsunami devastador da Ásia, a natureza e suas imprevisíveis manifestações têm que ser respeitadas. Pois bem, e se a correnteza do Jaguari resolvesse ter ‘atitude’ nas primeiras horas do primeiro dia do ano? Quem seria o líder a vestir uma impermeável capa amarela, fazer cara de preocupado, sobrevoar (a prefeitura tem ‘SanjaCop’?) as áreas atingidas e prometer imediata ajuda aos desabrigados? Quem?!
2- É fato que a pujante Aguaí tem ‘roubado’ algumas empresas do nosso fabuloso parque industrial. A contenda tem provocado algumas escaramuças políticas. E se alguns rebeldes aguaianos aproveitassem os festejos de Réveillon pra se insurgir contra esta Sanja transformando as leves investidas verbais num sangrento conflito bélico? Quem seria o líder a conclamar as forças crepusculares de terra, ar e mar pra sufocar o levante aguaiano? E quem convocaria uma coletiva no Salão Vermelho para, em tom grave e ladeado pelo Estado-Maior, dizer que a resposta vai ser ‘à altura e que as fronteiras vão ser prontamente restabelecidas’? Quem?!
3- E se na manhã do dia 1º, o doutor Abílio aterrissasse diretamente de Angra pra prestigiar a posse do Turquinho? Quem seria o líder a esperá-lo no aeroporto municipal para, às portas do Learjet, papagaiar que ‘a região da Mantiqueira comporta um Extra, quiçá um Pão de Açúcar’? Quem?!
Ainda bem que o Barbudo lá de cima olha por nós. Amém!
Penas peçonhentas
Profetas apocalípticos estes meus colegas do Correio. Gente maldosa, apóstolos da catástrofe que adoram reverberar notícias negativas. São, por interesses espúrios, talvez, incapazes de ver as coisas por uma ótica menos desgraçada.
Mania chata esta de estragar o sábado do leitorado com apontamentos eivados de veneno.
A bem da salutar controvérsia, este colunista, não menos venenoso, vai advogar para os alvos de penas tão peçonhentas.
A perversidade começa na página 2, num editorial colérico. O editorialista devia estar de mal com o mundo quando disse que o Executivo municipal nada faz pra atenuar a chaga do desemprego. Só um cegueta pra grafar tamanha barbaridade.
Convido o míope rabiscador pra um tour pelo Distrito Industrial. Lá ele vai prostrar-se contrito diante da pujança industrial da cidade. Chaminés cuspindo fumaça e progresso. Máquinas manufaturando produtos e riquezas. Engrenagens barulhentas que colocam o pão em bocas famintas. Caminhões em profusão levando o suor e trazendo dignidade. Emprego aos borbotões. Gente feliz. Dinheiro no bolso.
Será que estes catastrofistas vivem em Marte pra ignorar os avanços na política industrial do município?
Além de se impressionar com o fabuloso Distrito, convoco o maldoso pra bater pernas no comércio da cidade. A grana que brota no Distrito circulando virtuosamente na Dona Gertrudes, Ademar de Barros e adjacências. Lojistas extasiados de tanto vender. Consumidores ensacolados e satisfeitos dançando ao som das maquininhas de cartão de crédito. Vendedoras sorridentes engordando os bolsos com polpudas comissões. Vagas de sobra. Plebe afortunada. Prosperidade de dar gosto.
A pregação da desventura segue em conversas no jardim. O hematólogo-jornalista Celso Jardim mostra todo seu apreço pelo sangue.
O sanguinário escriba decreta em tom fúnebre que o 1º de Maio não deve ser festejado.
Ora, caro Celso, não só de pão vive o homem. O povo tá feliz, as burras municipais estão abarrotadas de tanto arrecadar. Que mal há em proporcionar um pouco de circo à patuléia?
Outra coisa, colega, você que gosta tanto de jardim que até plantou um no seu nome, me responda com sinceridade: qual administração fez mais pelos jardins do que este mandarinato tucano? Jardim suspenso, jardim subterrâneo, jardim eletrônico com som estéreo e dolby surround. Tem até jardim normal.
Quantos paisagistas e jardineiros não foram empregados nesta farra jardinófila?
Agora, Celso, muito cá entre nós, emprego bom mesmo o prefeito quer dar para o seu vice a partir de 1º de Janeiro do próximo ano.
Diria o saudoso Mané Garrincha deste intento do alcaide em perpetuar os “mandatus tucanus”: “ele já combinou com os eleitores?”
Pelos cotovelos
Circunstâncias obrigaram-me, dia destes, a tomar um ônibus em Aguaí pra retornar às plagas sanjoanenses. A fragrância de sovacos encharcados denunciava que naquele coletivo viajava a plebe trabalhadora.
Antes do busão cair na estrada uma moçoila de belos traços e regada com odores mais nobres se aboletou, também, na jardineira da Santa Cruz.
Mal se esparramou na poltrona, engatou papo com uma conhecida. Sejamos justos, dizer que foi papo é ultrajar o vernáculo. Um monólogo modorrento é o que protagonizou a fulana na curta viagem.
Pesquei que a matraca é farmacêutica recém-formada que tem uma ânsia monumental pra ecoar seus conhecimentos acadêmicos.
Começou discorrendo sobre medicamentos controlados e a perigosa associação destes com bebidas alcoólicas: “a moçada faz essa mistura pra animar as baladas”. Seguiu tagarelando sobre a supermaconha: “a planta é geneticamente modificada pra concentrar altas quantidades de THC, o princípio ativo da erva que deixa as pessoas doidonas”.
Manipulação, alopatia e homeopatia também foram objetos de enfadonhas teses da sabichona. Toda explanação era concluída com um risinho e um movimento de cabeça tipo viu-como-eu-sei-tudo.
Esbravejou contra uma tal Associação dos Farmacêuticos do Leste Paulista que surrupia trinta paus dos seus proventos. Segurei pra não entoar palavras de ordem.
Antes do ônibus estacionar na rodô de Sanja a sábia boticária ainda teve tempo pra uma auto-louvação que justificaria seus progressos financeiros: “sei que hoje eu ganho mais que muitos pais de família, mas nada caiu do céu, não sou uma sortuda, o que eu ganho é uma recompensa pelo meu esforço em cursar uma faculdade”. Segurei pra não aplaudir.
O anel dourado na mão esquerda revelava a sua condição de esposa. Por um instante me compadeci daquele pobre diabo com quem a faladeira divide os lençóis.
E, contrito, me compadeço também dos leitores deste Correio que perderam minutos do seu sábado com um texto que leva a lugar nenhum.
Palmeirinha: lembranças e saudades do velho alçapão
Dia destes ao remexer guardados antigos encontrei uma velha e surrada bandeira alvi-negra. Fiquei surpreso e intentei jogá-la no lixo.
Por que um tricolor até a raiz dos cabelos preservaria entre tantos objetos de estima um antigo estandarte da fiel mosqueteira????
Lembrei!! Alvi-negra, sim, coríntiana, não.
A bandeira preta e branca foi confeccionada por minha avó, Dona Fiuca, especialmente para a final da então 3ª Divisão de Profissionais. O ano era 1979 e o nosso Palmeirinha, se a memória não me trai, foi campeão e ascendeu à Segundona jogando contra a Guairense.
Segurando o velho pano mergulhei em boas lembranças. O futebol sanjoanense está tão apagado que, aos 29 anos, já estou saudosista. Bons tempos.
Bons tempos...
...em que o Palmeirinha mandava seus jogos no Getúlio Vargas Filho.
...em que o bambuzal atrás do velho estádio era uma ameaça a árbitros mal intencionados. (“Olha o bambu, juiz!!”)
...em que torcíamos pelo Palmeirinha petiscando os amendoins torrados do “seo” Mancini.
...em que o Chupetinha azucrinava o bandeirinha. (Ver o jogo, nada. O prazer do velho Chupeta era correr acompanhando o assistente e gritando palavrões.)
...em que eu assistia os jogos atrás do gol para atirar gelo de raspadinha no goleiro visitante.
...em que um dos meus grandes prazeres de moleque era ser gandula em Vila Manoel Cecílio, trajando aquele horrível shorts preto com camiseta branca.
...em que os jogos noturnos eram disputados à luz de velas. (Os refletores mais pareciam iluminação de boate.)
...em que a Torcida Uniformizada Lobos da Vila incendiava o pequeno alçapão.
...em que Piau fazia gols do meio-campo.
...em que Ari fazia gols olímpicos.
...em que assistia Mirandinha, ao vivo, correndo de cabeça baixa e fazendo gols.
...em que Norinha defendia o arco palmeirino envergando um uniforme (hoje, horrível) bordô.
...em que João Bacana era o eterno interino. (Caía o técnico e lá estava ele para tampar o buraco.)
...em que gente abnegada e apaixonada como Dr. Antenor, Bento Palermo, Severiano Palomo e tantos outros eram a força motriz do futebol local.
...em que grudava os olhos no campo e o ouvido na Piratininga para saber do plantão de Fábio Silveira a quantas ia o meu tricolor. (Fabinho Silveira nos informava da “suntuosa” Sala Nacional de Esportes. Na minha ingenuidade de criança imaginava um local cheio de aparatos tecnológicos para receber notícias ininterruptamente. Que nada. Tempos depois vim a saber que a “nababesca” sala eram os acanhados estúdios da Piratininga.)
Lembranças e saudades de um tempo bom e de um futebol romântico que já não existem mais.
O vice solta o verbo
Nenhuma democracia que se preze pode prescindir do confronto de idéias. O debate é um tônico que revigora as instituições.
A mídia, impressa principalmente, é o ringue ideal destes embates retóricos. Nas páginas dos periódicos as palavras amplificam-se em contundência. Situação e oposição lançam-se numa bestial troca de farpas. Antigos aliados escancaram suas diferenças.
O poder implode. O establishment esmorece. A soberania popular agradece.
Leitores deste novíssimo mas já prestigiado Correio, este palavrório pretensamente épico introduz nossa pequena província de belos crepúsculos em uma polêmica que vai chacoalhar o meio político.
Meia dúzia de incautos que acompanham esta coluna sabem que o alcaide Laércio Teixeirinha fez uso deste espaço, semanas atrás, para precipitar-se numa aventura de desmedidas ambições. Quer o atual prefeito mudar a Constituição pra que ele possa tentar o terceiro mandato consecutivo.
Com um latente azedume, o vice-prefeito Plínio Sinete reage ao propósito do (ex?) colega. Este pedaço de página orgulha-se em ser palco do cotejo entre os poderosos da cidade e publica mensagem eivada de fel do “number two”. A ela, ora pois:
“Imprudente colunista, ainda inebriado de estupefação tento serenar meus pensamentos para comentar a cascata de insanidades proferidas pelo prefeito nesta sua coluna. Se é que podemos chamar de coluna esta tribuna difusora da discórdia.
O prefeito Laércio atribui o seu esdrúxulo projeto de re-reeleição a um desejo incontido das bases. Lorota deslavada. Nossos correligionários, salvo um minúsculo séqüito de aduladores, querem ver sinetes badalando na eleição de 2004. Ele disse que vai buscar a tríplice coroa. Ora, tríplice coroa é palavreado de turfe, mas já que ele quer brincar com este jargão de corrida de cavalo, vamos lá: pangarés presunçosos não são concorrentes pra Mangalargas puro-sangue. Dentro do partido o páreo vai ser uma barbada pró-Sinete com mais de dois corpos de vantagem.
Saindo da cocheira mas não dos coices, refuto o pedante sonho de verão do Laércio de emendar a Carta Magna da República. Corre à miúda que ele não consegue nem proibir cachorros no condomínio onde mora.
Laércio desdenha dos colegas de partido chamando-nos de raquíticos e arrogando-se como um garotão sarado, forjado a leite Ninho e mingau de aveia. Não queria apequenar o debate com estas picuinhas nutricionais, mas não posso me furtar de explicitar aos leitores o resultado exuberante de anos e anos ingerindo a encorpada gemada da vovó. Exuberância esta que o espelho me revela todos os dias.
Concluo esta missiva, dizendo-me consciente do relevante papel institucional do vice-prefeito. Esta consciência, porém, jamais poderia ficar submissa a planos de exagerada aspiração eleitoreira. Silenciar seria concordar.
Que as badaladas do Sinete façam ecoar a melodia do bom senso por toda a cidade. Até 2004.”
p.s. Reza a lenda que certas figuras políticas não distinguem o real do ficcional. Diz a mesma lenda que esta miopia dos homens públicos os leva a pedir as cabeças de cronistas mais atrevidos. Que os sinos badalem vigorosamente por liberdade de expressão e sufoquem qualquer estranho ruído de censura.
O TiraLeitinho
Bem poderia iniciar este texto com uma auto-louvação: “sucesso absoluto de público e crítica, a coluna recebeu borbotões de e-mails e reabre espaço pra mais dois destemidos perguntadores que, com inequívoca verve crítica, deixarão o prefeito numa tremenda saia-justa.”
Pura falta de inspiração. Esta é a verdade. Usurpo das indagações destes leitores retardatários e “viajo na maionese” de novo pra bobajear supostas respostas do tucano mais empertigado desta Sanja crepuscular.
Como o prefeito avalia suas realizações no período em que esteve à frente da Prefeitura? (E.J.O.)
Pingou na área eu estufo a rede. Linda pergunta pra mais bela das respostas. O prefeito, permita-me a 3ª pessoa pra falar do mito, avalia sua gestão como um divisor de águas na história da cidade. Nunca se fez tanto em prol dos menos favorecidos. Tem o projeto Pingapura, em que a Prefeitura subsidia nos botecos da periferia duas doses de boa cachaça pra os labutadores pais de família que não dispensam uma cana pra se refazer. Mais do que o justo refazimento, estes trabalhadores têm na mardita um “toma-coragem” pra enfrentar a ira das patroas. E, vamos e venhamos, a mulherada de hoje em dia tá de amargar. Outra “menina” dos meus olhos é o projeto TiraLeitinho. Idealizei o TiraLeitinho visitando os estábulos do tio Haroldo. Titio tinha um rebanho leiteiro que só fazia dar despesas. Mandei alugar as vaquinhas do tio e as espalhei em “milk-points” estrategicamente escolhidos. A “dona maria” pega o seu latãozinho e se dirige à mimosa mais próxima, onde, ela mesma ordenha o leitinho das crianças. O TiraLeitinho enche o bucho da molecada e o bolso do tio Haroldo.
Qual a importância da honestidade na administração do dinheiro público? (A.P.P.)
Total importância. O prefeito é probo, honrado, foi crismado, assiste missas dominicais, brinca de cavalinho com os filhos, não deixa toalha molhada em cima da cama, não alaga o banheiro e põe o lixo na rua sempre que a mulher pede. Ah, escreve aí também que o prefeito toma sopa sem fazer barulho. Não basta ser honesto, tem que parecer honesto.
p.s. Em “Os Intocáveis” Kevin Costner na pele do agente Eliot Ness combatia o gangsterismo da Chicago dos anos 30. Entre uma ação e outra filosofava: “é bom ser casado”. Faltam-me os atributos físicos do galã de Hollywood e a retidão do policial Ness, mas, neste 14 de Julho de 2004 ao completar 15 anos de casamento, o escriba lustra a aliança e confessa concordar em gênero, número e grau com a assertiva. É bom ser casado!
O Pronto Socorro
O editor deste Correio está por demais azoretado. Não satisfeito em ceder espaço no jornal a palpiteiros bancários pretensiosos, ele comete outro desatino e escala estes mesmos forasteiros ineptos para coberturas de campo.
O esboço de escrevinhador, titular deste canto de página, foi enviado para cobrir a inauguração do novíssimo Pronto Socorro Municipal.
Como o talento é nenhum, recolho-me em minhas insuficiências e limito-me às transcrições de nacos dos discursos protocolares, tão praxe nestes tipos de efemérides.
Sacras palavras foram proferidas pelo Bispo diocesano:
—Somos nós, clérigos de boa vontade, que acudimos almas e espíritos lesionados. Todavia, caríssimos irmãos, há toda uma sorte de contusões em que as profanas carnes carecem de mais do que louvores e invocações divinas. Nestes críticos momentos, o alívio vem em forma de gazes, merthiolate, analgésicos e ataduras, quiçá até de um providencial gesso reparador das tão terríveis fraturas ósseas. Congratulo-me com o alcaide por remediar com bela obra as moléstias de seu povo.
O Juiz de Direito argüiu com uma curta e bela peça de retórica:
—Denúncias sórdidas vem machucando a Justiça deste país. Um denuncismo exacerbado vem ferindo de morte a credibilidade dos nossos tribunais. Curativos institucionais existem e, logo, recomporão a cútis ralada do Poder Judiciário brasileiro. Neste belo edifício público o curativo é mais prosaico mas igualmente importante. Salve, salve, senhor Prefeito, cicatrizada será a população sanjoanense e cicatrizados serão os profundos cortes que ora afligem os magistrados deste Brasil varonil de céu da cor anil. Rimou, né?
Descerrada a placa inaugural, o Prefeito, orgulhoso e com os olhos marejados, teceu emocionado discurso aos presentes:
—Já disse, redisse e tredisse, mas não me fatigo em repetir aos quatro cantos: a minha administração foca o bem-estar do ser humano. Prevenir é melhor, mas nem sempre possível. Se remediar for necessário, ossos rompidos serão colados, incisões serão costuradas, feridas serão curadas, cascatas de sangue serão contidas e todas as formas de dor serão incansavelmente combatidas. Cidadãos desta São João de belos e majestosos crepúsculos, o meu ardoroso desejo é que todos tenham preservada a sua integridade física. Não obstante, se precisarem de uma bandagem asséptica e outros derivativos remediáveis, procurem e terão amparo neste Centro Médico de Auxílio Rápido a Acidentados e Congêneres. Nossa, plagiei o Simão e tucanei o Pronto Socorro! Muito obrigado a todos.
Findos os rapapés cerimoniais, Prefeito, Vice e outras autoridades receberam curativos simbólicos de estonteantes enfermeiras louras. A banda municipal, afinadíssima, executava o flash-back do Queen: We are the Champions. Um luxo!
O professor Acacio
Em respeito a inúmeros amigos e leitores que se solidarizaram a este escriba em razão da publicação da réplica ao artigo de Acacio Vaz de Lima Filho, volto ao tema para rebater a nebulosa tréplica redigida pelo articulista.
Acacio continua valendo-se de uma oratória erudita para iludir os incautos. Usa e abusa de um vocabulário floreado e cheio de citações para sustentar seu amargo extremismo. Coloca uma vistosa embalagem num produto de segunda.
Um artigo opinativo não é uma petição inicial ou uma contestação. Não vou ficar me guiando por formalismos e tecnicalidades para exercer a liberdade de expressão. O articulista diz que invocar direito de resposta é “atécnico” e “pedante”. Pode até ser, mas não sou covarde nem imbecil para ouvir quieto um amontoado de bobagens.
Peço desculpas ao ilustre advogado se demonstrei intimidade ao chamá-lo de “Acacinho”. Realmente não tenho, e nem quero ter, intimidade com arautos de regimes totalitários.
Quanto a insinuação de não respeitar os mais velhos, vou ser bem didático como gosta o senhor Acacio: respeitar os mais velhos não significa concordar com estes quando emanam idéias absurdas e desconexas com o mundo em que vivemos. Respeito a pessoa, mas desprezo seu ideário intolerante.
O articulista volta a demonstrar ignorância e descompasso com a realidade ao dizer que a mídia trata Fidel Castro com “benevolência”. Só se ele estiver falando da imprensa oficial cubana. Os meios de comunicação noticiam à exaustão as mazelas do sofrido povo cubano.
É verdade que em 1964 havia uma repulsa popular ao comunismo. Disse e repito: o regime marxista deveria ser combatido dentro da legalidade, sem afrontar o Estado de Direito. O advogado radical não perde o vício da má-fé quando afirma que existia um clamor da sociedade pela ditadura. O povo brasileiro, ao contrário do que pensa o senhor Acacio, não se restringe à meia dúzia de direitistas membros da TFP.
Novamente o articulista expõe sua faceta cômica ao opinar que os governantes apenas “reagiram” ao radicalismo das esquerdas. Vamos voltar ao didatismo tão apregoado pelo professor e advogado. O senhor deve se lembrar das aulas de Direito Penal da São Francisco em que o tema era excludentes de ilicitude. O juiz só acata a tese da legítima defesa quando o ofendido reage proporcionalmente ao ataque do agressor. Repito, proporcionalmente.
É necessário uma intervenção cirúrgica para cicatrizar um ferimento superficial???!!!
O senhor Acacio foge do foco da polêmica ao desviar suas linhas para detalhes biográficos de Luis Carlos Prestes e Carlos Marighela. Conheço as histórias e acho irrelevante ficar discutindo as patentes ou não patentes de Prestes e Marighela. O articulista quer tergiversar com questões menores para escapar ao centro da divergência.
Nos anos de chumbo a Faculdade do Largo de São Francisco realmente era o centro nervoso da política nacional. O então estudante deve ter aproveitado muito mal este efervescente período pois é muito sofrível em matéria de consciência política. Como um operador das leis pode defender com tanta veemência a ruptura da legalidade? Sinto-me insultado ao ouvir um “colega” advogado achincalhando a democracia.
Aceito o carimbo de “panfletário”. Panfletário, com muito orgulho, das liberdades individuais e do respeito às instituições.
Continuar defendendo a censura é abraçar de vez a máxima “me engana que eu gosto”. O povo, segundo o senhor Acacio, só deve ver o que passa pelo “filtro moral” implacável dos censores. Que país maravilhoso!!!!
Ressalto, ainda, que esta divergência ideológica dificilmente chegaria às páginas do O Município nos tempos da ditadura. Os direitistas não precisavam gastar o intelecto para discutir com os opositores. Acionavam o aparelho repressor estatal e pau-de-arara nos adversários políticos. Foi o Luis Nassif, insuspeito e respeitado jornalista, que disse com todas as letras: Acacio Vaz de Lima Filho dedurava oponentes e os entregava aos porões dos quartéis.
É possível que tenha incorrido em tropeços gramaticais, ainda mais na árida matéria de crase, mas prefiro cometê-los ao invés de tropeçar no bom senso e defender um regime que praticava a tortura. Português torto mas moral reta.
Finalmente vou concordar com o articulista que arroga-se com uma inequívoca vocação para professor. Sim, é verdade, Acacio é um grande professor.
Professor titular da cadeira de Truculência na Universidade da Ditadura.
P.S. Da minha parte dou por encerrada a polêmica. Se o outro articulista insistir na produção de ensaios cômicos, que continue só.
O Perde-Tempo e o nariz dos Campanholli
Conceito bacana o do PoupaTempo. Centralizar num mesmo espaço diversos segmentos do serviço público é idéia genial para poupar o probo cidadão de uma via crucis pela burocracia do Estado. Pena que tão notável lampejo tenha sido contaminado pela conhecida ineficiência estatal.
Este relapso cronista e tosco motorista, com sua Habilitação expirada, buscou no PoupaTempo de Campinas a renovação do salvo-conduto pra pilotar por aí. Aproveitou a viagem, também, para solicitar uma segunda via do RG e trocar a foto de um molecote travesso em 1983 pela de um balzaquiano apalermado em 2004.
Decepção I: o RG demora 48 horas pra ficar pronto. 48 horas? Poupa tempo onde, cara-pálida? Qualquer pirralho munido de micro e impressora confecciona um passaporte britânico em cinco minutos. A atendente, na hora, cola a foto e colhe a digital no documento. Dois dias pra botar um plastiquinho e escarafunchar antecedentes no sistema é um pouco demais. E depois o escriba é que é apalermado. Ah!, tem-se a opção de receber o RG via Sedex, só que o infeliz recebe a informação quando está finalizando os procedimentos e aí, a servidora, com cara de enfado, diz que é tarde pra optar pelos Correios uma vez que a tarifa postal tinha que ser recolhida junto com a taxa da emissão do documento.
Decepção II: na renovação da CNH finda-se o processo com o exame médico. Neste momento o doutor estarrece o reto contribuinte informando que a Habilitação só fica pronta em 4 horas. 4 horas? Poupa tempo onde, cara-pálida? Qualquer pirralho munido de micro e impressora confecciona uma funcional do FBI em três minutos. Ah!, a vagareza tende a se espalhar pelo sistema. Depois de 4 horas batendo perna no shopping voltei ao PoupaTempo pra pegar a CNH e, replay da cara de enfado, sou informado que a lentidão no sistema fará o meu documento tardar mais 4 horas.
Decepção III: na fila de triagem a família Campanholli tagarela à minha frente. Lá pelas tantas um conhecido os aborda dizendo que Campanholli filho é a cara de Campanholli pai. Campanholli filha, resignada, concorda com o conhecido dizendo que o horrendo nariz-de-broa difere os Campanholli dos demais humanos. Verdade pura, botei reparo e conferi que os Campanholli têm um naso medonho.
Voltei pra São João sem os documentos, com uma bruta raiva e rogando ao Todo-Poderoso que agracie a próxima geração dos Campanholli com um órgão olfativo mais gracioso.
p.s. Os que perdem seu tempo com estas mal-traçadas devem estar se perguntando: o que tem a ver o PoupaTempo com o nariz dos Campanholli? Absolutamente nada.
O palanque eletrônico (2)
Pra quem não lê a coluna, ou seja, todo mundo, informo que este aventureiro e usurpador do trabalho alheio está oferecendo suas virtudes marqueteiras aos candidatos a prefeito. Na última edição os palpites ficaram restritos ao ninho tucano. Tenente Fernandes e Plínio, modéstia de lado, foram agraciados com geniais sacadas publicitárias.
Não quero ser acusado de tucana tendenciosidade, por isso estendo meu poder propagandístico aos outros candidatos: Vick Nholla e João Otávio.
Não tem experiência administrativa, padece de alto índice de rejeição e sempre morre na praia: é o que dizem de Vick nas entendidas rodas da cidade. Sugiro ao candidato que se apodere do bordão malufista de “tocador de obras”. A imagem: numa grande área livre, o candidato, usando capacete de operário e roupa despojada, conversa com o mestre-de-obras analisando uma planta arquitetônica; ao fundo máquinas de terraplenagem e peões devidamente encapacetados trabalhando freneticamente. Vez ou outra, Vick conduz o mestre pelo braço mostrando ao encarregedo que “ali” erguer-se-ão vigas e pilares, enfim, clichê puro de um empreendedor que sabe o que está falando. O postulante, todos sabem, é homônimo de um poderoso ungüento que desobstrui as vias respiratórias. A animação gráfica seria interessante pra trabalhar com a seguinte analogia: o muco catarrento, repulsivo e renitente, simbolizaria as mazelas da cidade. O postulante devidamente paramentado de SuperVick, munido de portentosa ferramenta de sucção, combateria incansavelmente a gosma esverdeada que tanto atravanca o progresso municipal. Enquanto nosso super-herói trabalha com moderno sugador, os adversários seriam satirizados utilizando prosaicos lencinhos. “Respira, São João”: este slogan sustentaria uma lata de Vick Vaporub com a foto do candidato no rótulo.
João Otávio é acadêmico, elitista e distante das massas: é o que brada a voz das ruas. A tradição política da família tem que ser capitalizada a seu favor: num filminho em preto-e-branco o vovô prefeito senta o netinho no seu colo e ensina num tom meloso: “Tavinho, querido, o vovô está sendo o melhor prefeito que nossa cidade já teve. Hoje você é um menininho, mas um dia vai crescer e se tornar um homem. Um grande homem. Tenho certeza que você não vai deixar a tradição política da nossa família morrer e será um prefeito tão bom quanto o vovô”. Tavinho concorda: “É o que eu quero, vovô. Fazer com que as pessoas sejam felizes e que São João seja cada vez mais um cantinho bom pra se viver”. O vovô sorri orgulhoso e balança a cabeça assentindo; coloca o garoto no chão e dá umas palmadinhas na bunda pra que ele, saltitante, volte a brincar. A acusação de pouca afinidade com as massas seria rechaçada com a seguinte galhofa: João Otávio, em close-up, vociferando indignado, “aqueles pássaros bicudos eriçam as plumas pra dizer que eu não ligo pras massas”. Vira-se para a câmera dois e prossegue com convicção, quase gritando. “Mentira”. A imagem se abre lentamente mostrando Tavinho sentado a frente de um belo prato de spaghetti ao sugo. Dá uma garfada e declara sorrindo, num tom bem calmo e de boca cheia: “Adoro as massas”. Ergue uma taça de tinto e arremata com o bordão-brinde: “Saúde, São João”.
O palanque eletrônico (1)
Rumores pululam nas esquinas da cidade dizendo que, na eleição municipal que se avizinha, São João estará inserida na era do horário eleitoral gratuito eletrônico, ou seja, os aspirantes ao gabinete da Marechal Deodoro prometerão fundos e mundos na telinha da TV União.
Ao que consta, Duda Mendonça não pretende estender seus domínios por estas bandas caipiras. Já que nas páginas deste Correio aventuro-me em rabiscos parvos, aproveito a necessidade de levantar uns trocos e arrisco-me em mais uma praia que não é a minha para oferecer meu prestimoso labor publicitário aos postulantes a prefeito.
Pra deixar bem claro que não estou nisto a passeio, abuso deste espaço e apresento a potenciais clientes um briefing do trabalho. Para tanto, este neo-marqueteiro usa o nome dos quatro candidatos mais evidentes até o momento: Tenente Fernandes, Plínio Quinête, Vick Nholla e João Otávio.
Tenente Fernandes, eleitoralmente falando, para o bem e para o mal é um militar. Da caserna vêm tanto ordem e disciplina ferrenhas como pendores em ações totalitárias. Sugiro ao tucano dizer ao eleitorado que só a firmeza e respeito às regras serão capazes de combater o caos administrativo e financeiro na Prefeitura. Imagens do candidato passando em revista aos servidores em posição de sentido ilustrariam bem as assertivas anti-desordem. Numa grande mesa de reunião, Tenente Fernandes, com semblante leve e gestos de concordância, ouviria um punhado de assessores na peça publicitária pra dissipar qualquer idéia de totalitarismo. Beijar um playground de pirralhos é clichê que também não pode faltar (esta cena em slow motion com música melosa ao fundo; dá-lhe lugar-comum). No slogan seriam fundidos dois conceitos, o do avanço para o progresso com o respeito dos fardados aos preceitos éticos e morais: “Marcha, São João!” (Findei este parágrafo prestando respeitosa continência).
Já ouvi falar que o Plínio é um forasteiro que tem pouca identidade com a cidade. O atual vice é figura simpática, jovial, sorriso fácil, sua imagem não exige muitas buriladas. Combater a pecha de alienígena pede alguma coisa assim: um barquinho rudimentar singrando nas águas turvas do Jaguari, na pequena embarcação o candidato, ostentando um boné do partido, seria conduzido em pé, altivo, devendo, como atento observador, mover a cabeça pra todos os lados e fazer cara de paisagem. Em determinado trecho do rio, o barco pára, Plínio saca da mochila (sim, ele tem uma mochila de camping pendurada nas costas) uma caneca com o brasão da cidade, se agacha e enche o recipiente com a água lendária do Jaguari. Na sequência a imagem em close-up mostra o candidato sorvendo o líquido numa golada só; segue com o vice tucano enxugando a boca na manga da camisa, soltando um longo aaaahhhh! de satisfação e fixando os olhos na câmera para decretar com seu inconfundível sorriso: “Essa eu bebi e gostei!”. O slogan não carece de muitos devaneios; a cara constante de comercial de creme dental prescreve o fim da carranca: “Sorria, São João!” (Findei este parágrafo sorrindo que nem bobo).
Em pílulas
Já usurpei a coluna com auto-promoção e interesses pessoais. Extrapolar no tamanho do texto já seria demais. Poupo o leitor da dose cavalar de bobagens e volto na próxima edição mostrando a Vick e João Otávio com quantas balas se abate um tucano.
O muro
Alertado por amigos, dei um pulo até a escola Joaquim José pra sapear uma construção que vem causando certa celeuma entre alguns entendidos da cidade. A edificação polêmica é um muro que, supostamente, propiciará mais segurança aos alunos, mestres e patrimônio do tradicional grupo escolar.
Notória é a minha insuficiência em qualquer assunto. Tão notória quanto esta incompetência é a minha capacidade em ignorá-la e palpitar sobre tudo e todos. Não sem razão o ombudsman deste Correio é contumaz em adjetivar-me de bicão e aventureiro. Usando e abusando desta capacidade, irrito meu vizinho e dou umas bicadas sobre o tal muro.
Vendo a alvenaria tomando forma sou obrigado a entoar o coro dos antimuristas. De fato, a obra é horrenda, um monumento ao mau gosto que desrespeita o mais comezinho dos conceitos estéticos.
Não é um muro que vai impedir a ação de vândalos e malfeitores. Ao contrário, nos horários de ócio a escola poderá ser invadida e o muro dará privacidade a bandalheiros e consumidores de entorpecentes.
Ao que consta, recentemente, por ocasião do seu centenário, o Joaquim José teve detalhes históricos de sua construção resgatados por um louvável trabalho de arquitetos especialistas. Murar o entorno do prédio é, mais do que enfear o centro da cidade, colocar uma moldura de quinta numa tela bem pintada.
Que o iluminado autor desta idéia busque inspiração na Berlim de 1989, quando o bom senso fez ruir o muro da discórdia.
Arejar é preciso...
Patrulheiros de redação e estilo deveriam ser sujeitos bem informados. Mesmo emprestando seu belo currículo a jornais de província eles poderiam, vez ou outra, dar uma olhadela nos grandes jornais do país. Arejar é preciso...
Há tempo pulula na grande mídia o termo ervanário como sinônimo de dinheiro. Só pra bem informar o nosso patrulheiro-mor: a Folha de S. Paulo, maior jornal deste país, tem entre seus colunistas o fantástico Elio Gaspari. Pois bem, não passa semana sem que o notável jornalista aponte exemplos de desperdício do ervanário público. Acho até que foi o próprio Gaspari o criador deste neologismo. Neologismo, segundo mestre Houaiss é: “emprego de palavras novas, derivadas ou formadas de outras já existentes, na mesma língua ou não; atribuição de novos sentidos a palavras já existentes na língua.”
Nunca é demais, também, lembrar aos patrulheiros que o vernáculo é dinâmico e que os dicionários funcionam a reboque deste dinamismo. Arejar é preciso...
Boçalidade vultuosa também recaiu sobre o uso da palavra vultuoso. O ombudsman deste Correio fez uma pesquisa capenga e publicou só o que lhe interessa. Vultuoso é, sim, termo médico como citou o ombudsman. Mas significa, também, segundo mestre Houaiss: volumoso, considerável. O mesmo que vultoso.
O patrulheiro, cansado de combater carunchos, neste caso vultuoso deve ter consultado somente mestre Aurélio, que acolhe unicamente o significado médico. Nos dias em que a fadiga permitir, este caruncho escriba recomenda: espie a bela, e vultuosa, obra do filólogo Antônio Houaiss.
Carunchos e leitores agradecem, porque tanto como arejar... pesquisar é preciso...
O melhor lugar do mundo
Encravada no coração da cidade tem a extensão de dois quarteirões. Este pequeno espaço público que, pelo tamanho, não deveria ser mais que uma rua, recebe o nome de Avenida. Avenida Tereziano Vallim.
O seu charme e a sua localização privilegiada justificam esta deferência na nomenclatura. Afinal, poucos logradouros públicos podem ser, ao mesmo tempo, centrais na localização e agradáveis no habitar.
Na Tereziano, esta proximidade com o centro da cidade só torna mais fácil a vida dos seus moradores. Dispensar o carro para um chopp no Tekinfim ou sair de casa, a pé, as 20:10h para uma sessão de cinema são pequenos prazeres que poucos na cidade têm.
Alguns podem contestar dizendo que a abertura de empreendimentos comerciais destruiram a vocação residencial da rua. Concordo em parte, também preferia a velha Tereziano onde só existiam casas, mas não há no mundo, negócio ou pessoa, que me faça ver nesta avenida aspectos negativos que justifiquem um não habitar. Muito pelo contrário, quanto mais tentam realçar supostos detalhes de decadência do logradouro, mais eu me apaixono por ele.
Numa época em que as pessoas procuram habitar em bairros afastados e condomínios fechados frios e distantes, eu ainda fico com a bagunça calorosa, charmosa e barulhenta do centro da cidade.
Nos últimos meses esta paixão me fez sofrer. Circunstâncias da vida levaram-me a mudar da Tereziano Vallim depois de trinta anos morando ali. Meu filho e minha mulher (em alguns aspectos, eu também) estão felizes no novo habitat e isso me conforta, porém, no íntimo, nunca gostaria de ter saído de lá. Desci apenas dois quarteirões, continuo morando próximo do centro, mas nunca será a mesma coisa.
Levo comigo um baú de boas lembranças do local onde nasci, fui criado, fiz muitos amigos, casei, tive meu filho, terminei a faculdade, etc., etc.
Talvez o tempo mostre-me que a mudança tenha sido prá melhor. Pode ser, embora eu ainda resista a pensar assim.
Da janela do meu novo apê, observo sob um belo pôr-do-sol, fumaças de indústrias e um crescimento desenfreado dos bairros periféricos. Esta visão do progresso deveria compelir-me a olhar para a frente.
Deveria, mas não está sendo assim. E nem sei se será. Deito no sofá, fecho os olhos e volto meus pensamentos para trás. Trinta anos de felicidade na Tereziano Vallim, a melhor rua do mundo.
Eu saí hoje. Amanhã, com certeza, eu volto.
p.s. Alguns amigos me questionam o porquê de não estar escrevendo mais. Escrevi poucas coisas nos últimos meses que O Município por alguma razão não quis publicar. Respeito a Editoria e não vou ficar contestando as razões. Mas, o grande motivo desta improdutividade na criação de textos foi a mudança de endereço relatada no artigo acima.
O jeito Teixeirinha de prefeitar
O autor desta coluna sempre sentiu o ego massageado com elogios às suas linhas. A vanglória é inerente à condição humana.
Saber que um texto meu está ecoando pelos cantos da cidade, devo confessar, é por demais gratificante.
Agora, quando o Estado Maior da província sente o golpe e demonstra uma falta de norte com o poder das palavras, caros leitores, a vaidade deste reles escriba sobe às alturas.
Vejam se não tenho razão, pois além de vaidoso, o titular deste espaço é um notório defensor da pluralidade de pensamento. Sustentado por um ferrenho respeito ao contraditório e embriagado pela chance de um auto-confete, reproduzo, a seguir, mensagem enviada à coluna pelo prefeito Laércio Teixeirinha:
“Caro Lauro, admito sem delongas que as plumas deste tucano ficaram eriçadas com a brutal repercussão da Entrevista por mim concedida à sua prestigiada coluna. Os canais de comunicação da Prefeitura foram inundados por uma tempestade de mensagens de protesto às minhas declarações. Veja só você, que terrível injustiça, dentre tantos adjetivos sórdidos, me chamaram de arrogante, prepotente, pedante e parlapatão. Choque é o que senti com as barbaridades contidas nas agressivas queixas dos munícipes.
Repilo com veemência qualquer tentativa inescrupulosa de colocar-me na vala comum da politicagem tupiniquim. Minha conduta política não se coaduna, em nenhuma hipótese, com barbalhices planaltinas, travessuras colloridas ou malufadas sorrateiras. Não. Absolutamente não.
Modestamente, reconheço que seu talento nato para inquirir pode ter me induzido involuntariamente a replicar de maneira deselegante às suas ardilosas indagações. E, querido Lauro, ardil, aqui, é no melhor sentido da palavra. É como devem atuar os bons repórteres. A provocação, neste caso, é ferramenta de trabalho.
Jamais intentei desqualifica-lo ou diminuí-lo na nobre função jornalística. Se o fiz, peço desculpas, pois não foi meu propósito atacar um sanjoanense de tão nobre cepa. Uma pessoa criada na tranqüila Tereziano Vallim do passado. Um bom rapaz que sentou nos bancos escolares do tradicional Joaquim José. Um homem que teve seu berço alicerçado pela força da aristocracia rural dos Borges aliada à sobriedade intelectual do professor Augusto Bittencourt. Não, meu caro, este prefeito que vos dirige o verbo não seria capaz de tamanha heresia.
Finalizando, peço sua permissão para, por alguns instantes, me livrar das incômodas amarras da modéstia e dizer que, na Entrevista, citei o neologismo “jeito Teixeirinha de prefeitar”. Acharam que era fanfarrice. Não era.
A História me fará justiça. Nas enciclopédias do amanhã, não tenho nenhuma dúvida, ao lado dos verbetes trabalhismo da era Vargas e desenvolvimentismo da era Juscelino vai estar grafado para a posteridade o prefeitismo da era Teixeirinha.
Um cordial abraço, do sempre amigo,
Laércio Limão Teixeirinha.”
O homem probo e os decibéis malditos
Evaldo, ou Vardão para os mais chegados, é um cidadão probo. Honra religiosamente seus deveres com o Fisco, é zeloso pai de família, leal com os amigos e labora com devotada honestidade pra ganhar o pão (e a cervejinha) de cada dia.
Este homem reto viaja todo santo dia até a vizinha Mogi Guaçu, onde verte o suor pra fazer jus ao bacalhau do Porto que alimenta sua prole e ao vinho de boa safra que rega seu espírito. Este colunista e mais três sanjoanenses de boa cepa, que também batem cartão nas paragens guaçuanas, acomodam-se diariamente no velho Santana do Vardão. Veículo este que a sabedoria popular alcunhou de Sucatão. Mas deixemos de lado os carros sem manutenção e voltemos ao leito carroçável.
Após extenuante jornada de trabalho os justos têm como recompensa um refazimento no íntimo de seus lares. Uns lêem, outros navegam na internet, alguns relaxam na TV, outros na música. Vardão faz tudo isso e ainda encontra tempo pra fazer artesanato com sucata. Que fique bem dito: o Sucatão ainda não foi objeto de nenhuma obra do nosso justo e reciclado artista de fim de semana.
Nos últimos tempos o que seria este saudável refazimento doméstico se transformou num aborrecimento dos mais desgastantes.
E por que nosso íntegro artesão não mais consegue fruir do sossego em sua morada?
Defronte à sua residência foi instalada uma igreja evangélica, cujo culto segue o rito neo-pentecostal, ou seja, louvores fervorosos, orações estridentes e música que maltrata os tímpanos.
Vardão como sujeito plural e defensor da Constituição que é respeita todas as crenças e religiões.
O quê Vardão com toda razão refuta são os decibéis hostis que invadem os recônditos de sua moradia e perturbam o seu necessário descanso. O volume do som é tal e tamanho que parece imputar uma surdez ao Todo Poderoso.
Meses atrás, incomodado e pressionado pela família, Vardão fez uma prece silenciosa e chamou o “pastor do barulho” pra um colóquio amigável. Na hora, o homem das rezas ruidosas pareceu entender o problema e até prometeu providências para manter as glorificações ardorosas dentro dos limites do templo. Vardão, como homem de boa-fé, deu crédito às palavras do mentor religioso.
A terra não sarou. Vardão foi iludido pelo homem e a agressão aos tímpanos e ao bom senso só fez aumentar.
Atormentado pela reincidente afronta, Vardão sucumbiu à gritaria e reuniu os seus para comunicar uma decisão radical: vender a casa e buscar tranqüilidade num canto onde seus direitos sejam respeitados.
Dito e feito. Pra resgatar qualidade de vida, o homem probo capitulou aos decibéis malditos.
Aleluia, irmão!
p.s. Vardão convida nossos nobres vereadores a um passeio pelas redondezas do templo do barulho. Os interessados no tour deverão contatar o e-mail da coluna. Recomenda-se levar protetor auricular.
Sábado, Março 05, 2005
O escriba no exílio
Há dezessete meses este escriba importuna a paciência do leitor com crônicas infames.
Pois bem, caro leitor, tudo tem limite. Que espoquem os fogos, Sanja se livra do seu pseudo-cronista e os leitores das toscas aspirações literárias da “pena mais viperina do século XXI”. As aspas são necessárias porque a assertiva é do generoso amigo Zezinho Só. Aliás, Zezinho foi dos colegas que mais jogaram confetes no ruim e porco verbo da ‘Dedo de Prosa’. Seus elogios, tão estimados quanto exagerados, massagearam o ego do cronista.
E, um auto-confete rápido, palavras de apreço vieram de todos os lados —do poder, da ralé, de amigos, de parentes, de entendidos e de não tão entendidos assim. O escriba agradece a todos os que viram literatura onde só existiam pífias escrituras. E agradece, também, as poucas críticas. Sem modéstia, não concordou com nenhuma, mas aprendeu com todas.
Já falei aqui, e reitero, que este Correio é estandarte maior da liberdade de expressão. A coluna, não raras vezes, enveredou por caminhos temerários da crítica ácida e da galhofa despudorada. Jamais recebi censura da editoria. Jamais me foi sugerido que eu deveria trilhar por este ou aquele caminho. A integridade dos escritos nunca foi sequer arranhada.
E por que o escriba vai abdicar de tribuna tão libertária?
O eterno nomadismo dos bancários vai desterrá-lo de sua Sanja crepuscular. É verdade que ele já ganha o pão em outras plagas, mas a nova plaga fica mais distante da verdejante Mantiqueira e vai obrigá-lo a beijar o sagrado asfalto da Tereziano Vallim somente uma vez por semana. Este proseador vai mergulhar de cabeça no novo desafio profissional e, por isso, vai dar um ‘off’ temporário nos referenciais provincianos que inspiram seus textos. Passado o período de adaptação, quem sabe esta pena volte com alguma coisa do tipo ‘Sanjoanense no Exílio’. Quem sabe...
Lá em Limeira, —sim, é lá o exílio— eu sei, vou me deixar seduzir por um crepúsculo não tão maravilhoso, mas suficiente pra remeter nostalgicamente meus pensamentos pra esta Sanja crepuscular me fazendo pisar e repisar a poética frase do Torero que diz que “a gente anda e tresanda, mas as coisas que nos emocionam são sempre as mesmas”. Obrigado, gente!! Até qualquer hora!!
O escriba descomplicado
Este colunista, não raras vezes, recebe de uns poucos leitores a torpe acusação de embalar suas crônicas num verbo empolado. O escriba reconhece que vez ou outra resvala para linhas labirínticas, mas refuta a pecha de proseador intrincado. E, tentando jogar pra longe esta inominável imputação, aproveita a idéia de uma matéria da Folha do último domingo —que versou sobre abusos de magistrados no ‘juridiquês’— e rabisca uma historieta com os verbetes constantes no ‘glossário’ da reportagem.
Isso sim é texto anfigúrico:
“Acendrado em seu ‘modus operandi’, o pandilha subtrai uma cártula chéquica e sai para infligir deslisuras em praça diversa da de seu domicílio. Enjaulado pelos meganhas, ele queda-se silente perante o alvazir. Este, resguardado pelo diploma legal, ordena que o meliante seja recolhido ao ergástulo público. Recursos são negados pelo Pretório Excelso e o sacomano é mantido no xadrez cinério.”
Límpido de complicações, o colunista grafaria assim o emaranhado acima:
“Cuidadoso em seu modo de agir, o bandido furta um talão de cheques e sai para aplicar golpes em cidade vizinha. Preso pela polícia, ele cala-se na frente do juiz. Este, amparado pela lei, ordena que o golpista seja encaminhado à cadeia pública. Recursos não são aceitos pelo Supremo Tribunal Federal e o bandido permanece na prisão cinzenta.”
A ‘Dedo de Prosa’ é ou não adepta do palavrório popular?
Música verdadeira
Leio por aí que o governo Lula instituiu um grupo interministerial denominado ‘Comitê Gestor da Sardinha Verdadeira’. Para a administração federal petista o assunto é de alta relevância. O tal comitê vai mobilizar pelo menos cinco ministérios, uma secretaria, um conselho e uma pastoral para debater o assunto.
Este escriba verdadeiro discorda dos medalhões da grande mídia que caíram de pau em cima do comitê. Não tem nada de cômico nesta séria iniciativa do governo. Quem em sã consciência ignora a importância da sardinha verdadeira para o futuro do Brasil? Só os figurões maldosos da imprensa marrom, aqueles iletrados que só conhecem sardinha enlatada.
E, cá da Sanja crepuscular, o colunista aproveita para sugerir ao ministro Gilberto Gil a criação de outro relevante comitê governamental —o ‘Comitê de Avaliação Artística da Influência do Bar do Peixotinho sobre a Música Popular Sanjoanense’. Desde já, a coluna palpita que Zezinho Só, Pistelli, Silvia Ferrante, Zé Fernando Entratice e Faustinho Fontão tenham assento permanente no comitê.
Em tempo: o Executivo municipal também estuda a criação dum importante comitê. O Turquinho Nicolau incumbiu o assessor João Marcelo de gestar o ‘Comitê de Estudos da Influência Política e Eleitoral do Movimento das Senhoras da Tereziano Vallim’.Enxerido, o escriba se auto-convida para presidi-lo ad eternum.
O escriba alienígena
Na condição de escriba alienígena, arengueiro contumaz e insultador do establishment, o colunista neófito arrisca-se a discutir algumas questões controversas que vêm germinando nas páginas deste Correio.
Jornalismo, numa simplificação bem tosca, encerra três vertentes basilares: reportagem, prestação de serviços e opinião. Esta última abarcando a linha editorial do veículo, o leitorado e a sociedade. A Dedo de Prosa, singelamente, inclui-se entre os palpiteiros sociais.
Nos foros acadêmicos e nas grandes redações discute-se, há tempos, sobre a obrigatoriedade ou não do diploma para o exercício do jornalismo. Não quero, aqui, polemizar com currículos respeitáveis. Até porque meu conceito, nesta e em qualquer outra área, é desprovido de qualquer valor. Alguns bacorejos, todavia, se fazem inevitáveis.
A coluna, não raras vezes, acolhe linhas críticas, ácidas até. No entanto, as palavras não ocultam nenhuma intenção política rasteira.
Tento, mal e porcamente, satirizar os costumes políticos, e, num jornal de província, nada melhor que ilustrar esta sátira com personagens locais. O chargista caricaturiza com traços. Este escrevinhador brinca com o vernáculo.
O poder é vidraça. Seria muito aborrecido rabiscar crônicas tendo como personagens o vereador inexpressivo ou o funcionário de quinto escalão. A coluna não intenta desrespeitar pessoas ou instituições. Existe, sim, crítica, ironia e sarcasmo. As vezes um arremedo de literatura. Mas, repito, sem nenhum interesse político menor.
Restringir a opinião escrita exclusivamente a profissionais diplomados é sectarismo retrógrado temperado com boas doses de corporativismo.
Pichar forma e conteúdo dos escritos é mais do que democrático. Agora, cercear a liberdade de expressão baseado no não-diploma de jornalista do subscritor, cheira o fedor insuportável dos regimes de força.
O cronista tem consciência que montanhas não serão movidas pelos seus pífios textos. Mas, com a renovada benção do editor Reberson, reafirma o desejo de continuar grafando tortas linhas neste canto de página.
Prazer e idealismo, sempre, serão suas forças motrizes.
O conselheiro
Gregório é um bancário de Porto Alegre com vinte e tantos anos de serviço. Há anos ele poupa uns bagarotes pra realizar o sonho do filho: viajar ao principado de mister Bush para recrear no parquinho de Walt Disney.
Mister Bush é um texano durão. Só abre a porteira do seu principado para turistas terceiro-mundistas que tenham visto diplomático. O turista, para conseguir o carimbo no passaporte, precisa rogar pessoalmente a um burocrata do serviço consular norte-americano.
Uns mil quilômetros de asfalto separam Porto Alegre do consulado ianque mais próximo: São Paulo. Esta viagem toma tempo e dinheiro de Gregório. Dinheiro que Gregório poderia usar para engordar a bagagem de volta com mimos e penduricalhos do Mickey Mouse. Gregório calcula despender uns dois mil reais, entre passagens e estadia, para que ele, a mulher e o filho recebam as bênçãos do almofadinha consular de plantão.
Corre à miúda que mister Bush troca confidências com um bovino do seu rebanho e que este, entre mugidos e porções de feno, aconselhou o patrão a endurecer ainda mais com os fãs do ratinho Mickey.
Seguindo religiosamente os conselhos do seu bovídeo, mister Bush ordenou ao serviço de imigração que identifique digitalmente e fotografe todo proletário que se arvorar a deixar uns trocos nos seus domínios. Mister Bush é ganancioso, além da gaita turística ele quer a marca do dedão e o retrato da plebe rude.
O gaúcho Gregório tem um compatriota mato-grossense que quer mostrar a mister Bush que temos mais que bananas nestes trópicos.
O magistrado federal Julier Sebastião da Silva, invocando o princípio jurídico da reciprocidade, mandou que os súditos de mister Bush tenham igual tratamento ao entrar em território brasileiro. Igual é modo de dizer, enquanto o serviço deles é rico, rápido, eletrônico e asséptico, o nosso é pobre, moroso, manual e lambuzado. Paciência, o gaúcho Gregório diria: cada bagual se vira com a potra que tem.
Enquanto presidentes se aconselham com quadrúpedes e magistrados lavam a alma dos humilhados, nosso turista dos pampas faz galhofa com os hábitos americanos: —Bah, tchê, vou porque o guri insiste, mas esta coisa de churrasquear com hambúrguer e salsicha é coisa de pelotense enrustido.
O centro do Universo é aqui
“É um moleque que acha que a praça Joaquim José é o centro do Universo.”
A frase acima foi proferida por um adversário ideológico na tentativa de me desqualificar como voz discordante às suas convicções políticas. Ao contrário do desejo ofensivo do meu oponente, acolhi os dizeres como elogio. Fiquei orgulhoso, até.
Sou um crepúsculo-centrista assumido, nascido e criado neste pedaço de chão, que não se envergonha em demonstrar a enorme afeição que sente por esta cidade.
A globalização é um fenômeno econômico e social inevitável. Lutar contra é burrice de quem quer trafegar na contra-mão da História.
No entanto, nesta avalanche de mudanças por quais a humanidade passa, alguns valores pontuais podem e devem ser preservados. O homem por mais antenado no mundo que seja, não pode jamais ignorar suas raízes, seu passado, enfim, seu baú de lembranças.
Ninguém pode ser feliz completamente se perdeu os referenciais físicos e históricos do seu passado. Já li em algum lugar, acho que numa declaração da Unesco, que esta perda de identidade pode causar no indivíduo uma neurose branda.
Obviamente preservar a memória não significa viver do passado, como também não devemos, apesar do apego pelo lugar em que vivemos, fechar os olhos para o quê de interessante existe lá fora. A praça Joaquim José, acho eu, é o centro de tudo, mas, reconheço a existência de vida interessante e fervilhante nas periferias do planeta.
José Roberto Torero, colunista da Folha, estava na Austrália cobrindo as Olimpíadas e se emocionou ao ouvir um grupo de brasileiros entoar o nosso hino nacional. Roubo sua frase para falar de São João: “A gente anda e tresanda mas as coisas que nos emocionam são sempre as mesmas.”
Muitas vezes estes pequenos detalhes que deixam a vida mais bela passam despercebidos. Desdenhamos de simplicidades que deveríamos reverenciar.
Tarde destas, minha mulher me chamou à varanda para contemplar um belíssimo pôr-do-sol. Larguei o meu jornal e fui meio a contragosto. Não me arrependi.
Venerando àquele indescritível espetáculo da natureza senti um arrepio na alma e tive uma maior certeza do profundo amor que sinto por esta terra de crepúsculos tão estupidamente maravilhosos.
p.s. Os centros urbanos vêm sendo degradados ao longo dos anos. Os espaços públicos perdendo qualidade de vida, tornandos algumas cidades quase inabitáveis. Penso e questiono: será que os administradores públicos têm amor pelos locais que governam e habitam??
O café ralo e o bruto caro
José é um brasileiro como tantos outros. Junto com o alvorecer ele pula da cama pra enfrentar a labuta cotidiana.
Seu desjejum é minguado. Sorve meio copo de café ralo e come um naco de pão puro amanhecido. Encontra forças pra encarar o dia no beijo da esposa que lhe abençoa a face seguido de um carinhoso “vá com Deus”.
José ganha o seu pouco mas honesto pão trabalhando na empresa de Franco.
Franco é um próspero empresário que fatura os tubos vendendo o seu produto. Dizem que a empresa de Franco até exporta. Corre por aí, também, que Franco gosta de investir vultuosa parte de seus lucros num hobby caríssimo. A paixão é tanta que Franco patrocina Brasil afora competições deste seu dispendioso hobby. Franco aprecia os brutos voando baixo.
Dia destes, José, cansado de derramar o suor no aluguel de sua modesta morada, foi até à agência da Caixa Econômica intentando levantar uns vinténs e financiar uma casinha. O gerente, compadecido do mísero salário de José, disse que sua renda era insuficiente para o valor pretendido, mas que, com os anos dedicados à empresa de Franco teria um valor razoável na conta do Fundo de Garantia e que este poderia ser usado como parte do pagamento do imóvel.
Entre surpreso e desolado, José descobriu, ante o gerente, que sua conta do Fundo de Garantia nunca vira a cor de dinheiro algum. Estava zerada. A empresa de Franco sonegava-lhe, e continua sonegando, um dos mais elementares direitos trabalhistas.
José franziu o cenho, ameaçou um choro e viu esvair como fumaça o sonho da casa própria.
Nada, aqui, contra os gordos lucros e os extravagantes hobbies de Franco. Mas tudo contra perpetrar estas extravagâncias à custa do surrupio do dinheiro de José e seus colegas.Gostaria que a história acima não passasse de pura ficção. Tirando os nomes, estes sim, fictícios, infelizmente ela é real e ocorre aqui mesmo nesta Sanja de belos e majestosos crepúsculos.
O bravo escrete da Tereziano Vallim
O jogo fora marcado para duas da tarde. Naquele sábado, o “time do Pedrinho” não jogaria nos domínios da Tereziano Vallim. O tira-teima seria fora de casa, na chácara do Cuca Jacob e contra o time do próprio, lá no fim da rua Santo Antônio.
Certa feita tentamos batizar a equipe de Porto, pelo fato do nosso único uniforme ser semelhante ao da equipe portuguesa. Não colou e ficou mesmo “time do Pedrinho”.
Na frente do nosso “estádio”, a casa do Pedrinho Bernardes, o técnico Beto Vitamina fez a preleção. Sempre achei o Vitamina, filho do Pereira, um grande estrategista. Diga-se, todavia, que para um bando de moleques ávidos por correr atrás da bola, qualquer meia dúzia de palavras bem articuladas soa como um magnânimo esquema tático.
O Beto Vitamina foi indicado como nosso técnico por ser mais velho que a turma imberbe e pelo chute potente. A disputa ficaria desigual caso um marmanjão com uma bomba nos pés jogasse entre fedelhos.
Terminada a exposição das táticas, seguimos, uniformizados e a pé, até o palco do embate. Durante o trajeto, o treinador que também exercia a função de preparador físico, mandou que o “escrete do Pedrinho” se movimentasse bastante para chegar bem aquecido até o campo inimigo.
Imaginem a cena, eu, Beto Costinha, Toco Michelazzo, Parrázio, Julinho Mamangava, Marcelinho Duchen, Mileide, Nando Goiaba, Rica —que hoje chamam de Fanta, mas que para a velha Tereziano vai ser sempre Rica—, Marcelo Queiroz, Pedrinho, entre outros, todos fardados, fazendo flexões e polichinelos na calçada da rua Santo Antônio. O Beto Costinha, faça-se justiça, era o mais aplicado nos exercícios físicos.
O campo dos Jacob, que tinha grama, traves de ferro e redes, era um lugar perfeito para um time como o nosso, acostumado a ralar joelhos e cotovelos em pisos duros e ásperos onde as balizas eram de bambu e as redes imaginárias. Até juiz tinha, o seu Nege, pai do Cuca e dono da propriedade, se auto-escalou para arbitrar o cotejo. Achamos meio estranho o apitador ser pai do dono do time adversário, mas como tudo era novidade ninguém contestou.
O primeiro tempo terminou com o placar igual em um, num jogo que os comentaristas de antanho definiriam como parelho.
Num lance, na segunda metade do tempo final, a esquadra da Tereziano atacava em bloco, acuando o time da casa. Nesta hora houve um bate-rebate na área e, num presente dos deuses da bola, a esfera de couro sobrou limpa nos meus pés. Sem goleiro e embaixo do travessão, numa banheira vexatória, poderia marcar o gol com um chute colocado executado com a lateral dos pés. Não. O futebol do escriba era tosco e medíocre. Dei uma horrível bicuda estufando as redes. Dois a um e caminhávamos para a vitória.
A glória viria se os instintos paternais do seu Nege não emergissem no último minuto da peleja. Numa disputa limpa na nossa área, Cuca faz um teatro e se joga tentando cavar o pênalti. Papai-juiz apita forte e aponta para a marca da cal. Escândalo. O árbitro da casa faz-se de surdo aos nossos histéricos reclames. Cuca cobra mal pra chuchu mas Toco não consegue pegar. A contenda termina empatada e com gosto de derrota para os bravos da Tereziano.
Tristeza? Sim, alguma tristeza. Mas só por algumas horas, até o dia seguinte, um domingo ensolarado em que a borrachuda Dente-de-Leite não parou um minuto de quicar no quintal cimentado da mansão dos Bernardes.
O barbudo empijamado
Monterrey, México, alta madrugada. O barman do cinco estrelas que hospeda os chefes de Estado da Cúpula das Américas se prepara pra fechar o “boteco” e pegar o rumo de casa. Enquanto dá a derradeira lustrada no balcão de mármore, Juan percebe um barbudo empijamado se aproximando.
O insone se aboleta na banqueta e emite um grunhido cavernoso:
— E aí companheiro? Segura mais um poquito de tiempo que yo estoy sequito de sede. Manda uma tequila que o papo com o Bush foi brabo.
— É pra já senhor. Aceita pistaches pra acompanhar?
— Isso é muito fresco. Não tem torresmo?
— Como, senhor?
— Torresmo. Gordura de puerco frita.
— Não, senhor. Temos pistaches, amendoim e frutas secas.
— Então manda um meio copo de minduim. Enche um copo procê e senta aí pra gente trocar umas idéias.
— Não posso, senhor. O regulamento do hotel não permite que serviçais sentem-se com hóspedes.
— Rasga esta joça de regulamento e senta aí. Pode ficar tranqüilo, se a coisa azedar pro seu lado eu levo um lero com o gerente e ponho os pingos nos is.
— Já que o senhor manda...
— Mas vou te falar, companheiro, este seu vizinho do norte é casca dura. O homem é duro na queda. Negociar com texano rancheiro não é fácil. E ainda por cima tem aquele grandão pra se intrometer. Eu tava quase amaciando o homem quando entra o Colin Powell, que cochicha pra ele e estraga tudo.
— Entendo, senhor...
— Não, não entende. O companheiro George acha que todos que estão fora da sua cerca são bandidos. Ele acha que os States é como a sua fazenda, onde ele bota um peão na porteira pra barrar os intrusos.
— Senhor, eu acho...
— Não, você não acha nada, só me escuta. Estou farto deste discurso imperialista e arrogante das grandes potências. Elas só fazem humilhar os povos do terceiro mundo. Suas decisões xenófobas e seu protecionismo predador causam dor e fome às nações pobres. No Brasil pensam que eu renunciei à utopia socialista. Estão enganados. A chama do socialismo ainda arde dentro deste velho peito metalúrgico. E vai arder até o dia em que o Todo-Poderoso me mandar pra eternidade.
— Mais uma dose, senhor?Não. Vou dormir. Dose vai ser amanhã... audiências com o Fidel e com o Chavez. Ah meu Deus, haja paciência...
O banheiro
Temendo o apagão, a assessoria do prefeito marcou a cerimônia para o começo da tarde.
Estava todo mundo lá, prefeito, vice, juiz, bispo, autoridades, populares e toda sorte de aspones e puxa-sacos que adoram bajular o Poder. Chamaram até a banda municipal para animar o grande evento.
Que grande evento?? Ora, ora, que mais poderia ser senão a inauguração do banheiro público na praça central da cidade.
O governador foi convidado mas recusou o convite alegando uma indisposição estomacal. Ainda bem que a indisposição foi essa, caso o desarranjo fosse intestinal seria bem possível que convidassem o governador para inaugurar, literalmente, a obra.
Na entrada do sanitário armaram um palanque onde as autoridades se revezavam nos discursos.
O juiz da segunda vara revirou as catacumbas do Direito para enaltecer as privadas do povo:
“Um banheiro, sim, um belo banheiro. Uma obra de arquitetura, sim, uma magnífica obra de arquitetura. Mas, povo aqui presente, isto é muito mais que um belo banheiro ou uma magnífica obra de arquitetura. Muito mais. Nesta praça foi edificado um ideal de justiça, um sonho de igualdade. Nestas latrinas não há discriminação. Nelas repousarão as nádegas do rico e do pobre, do branco e do preto, do católico e do crente, do gay e do hetero, do médico e do padeiro... Parabéns ao prefeito por sintetizar numa obra pública o que a humanidade busca há séculos.”
O bispo foi breve e profundo:
“Nós sacerdotes, somos procurados pelos fiéis quando a alma e o espírito padecem. Entretanto, meus caros, as vezes é o corpo com suas contrações abdominais que clama por socorro. Nestas horas, queridos irmãos, só um bom banheiro para aliviar o suplício. Cumprimento o prefeito por atender aos anseios fisiológicos do seu povo.”
Embarcando no populismo exacerbado que contaminou os oradores, o prefeito se empolgou:
“Numa época em que o mundo se preocupa somente com números, cifras, cálculos, estatísticas e tudo o que vem a reboque das ciências exatas, a minha administração foca o ser humano a as suas mais imprevisíveis manifestações biológicas. Queremos que o cidadão tenha um teto aconchegante onde, na hora do aperto, possa satisfazer as suas mais humanas necessidades. Quem aqui nunca se viu arrepiado buscando desesperadamente por um vaso límpido? Meus concidadãos, esta obra marca um divisor de águas na minha gestão. De hoje em diante, eu e minha equipe vamos administrar a cidade visando o completo bem-estar do munícipe. Usem e abusem do banheiro. Façam nele o que tiver que ser feito.”
Após os calorosos aplausos ao discurso do alcaide, o mestre-de-cerimônias saiu do script e convocou o estado-maior sanjoanense:
“Neste momento ímpar na história desta cidade, quero convidar o senhor prefeito e seu vice para que inaugurem de verdade o banheiro, derramando seus fluídos corpóreos sobre a alva louça sanitária nele instalada.”
Constrangidos mas sem saída, Laert e Plinio desceram abraçados a rampa que leva até o interior dos aposentos sanitários. Enquanto o establishment municipal fazia seu pipi, a banda, encerrando a epopéia vespertina, tocava “Carruagens de Fogo.”
O Aeroporto
Pra ser fiel ao jargão aeronáutico, um “céu de brigadeiro”, o tempo naquela manhã de domingo estava perfeito para a ocasião. Nenhum algodão branco manchando o lindo azul celeste.
Depois de alguns meses e muitos milhões de dólares, o Aeroporto Municipal seria finalmente inaugurado.
O PIB sanjoanense compareceu em peso. Tinha Sibin voador, Bruscato com hélice, Rehder com turbinas, irmãos Souza-Soufer adornados por asas e pintura na fuselagem. Num cálculo bem modesto, 95% de toda a gaita circulante na cidade deu o ar da graça na nova jóia da coroa do reinado tucano.
A assessoria da Prefeitura cochilou e não conseguiu agendar o fantástico show da Esquadrilha da Fumaça. O povo teve que se contentar com as piruetas do Gustinho Puglia em seu ultraleve acrobático. Não tava ruim, mas, honestamente, qualquer coisa comparada com a destreza dos aviadores da FAB parece chinfrim.
Em festa de província que se preze, além das autoridades de praxe, toda espécie de lambedor e papagaio de pirata se faz presente. Na inauguração em questão, não foi diferente. Aspones e puxa-sacos desfilavam atrás da comitiva do Poder.
O prefeito, numa soberba indisfarçável, observava tudo através das lentes escuras de um óculos italiano. Comentários maldosos diziam que o alcaide se achava o próprio Tom Cruise nas gravações de “Top Gun”. Ao seu lado, o vice Plínio, mais acessível, era só sorrisos e tapinhas nas costas, vestido a caráter num bonito macacão de piloto. Todo mundo achou meio cafona a vestimenta do “number two”, mas Plínio estava tão irradiante que ninguém ousou nada além de rapapés e elogios.
Dom David, o bispo diocesano, abençoou as instalações e a pista, tecendo, depois, rápidas palavras aos presentes:
“Irmãos, quem busca as sagradas escrituras procura meios de elevar o espírito e a alma aos céus. No plano terreno, todos sabem, o mundo moderno exige que busquemos, também, os céus cada vez mais. Assim como o espírito precisa de alimento, o planeta globalizado não pode prescindir do transporte aéreo. Rejubilo-me com o prefeito por proporcionar ao povo esta belíssima obra que, sem sombra de dúvida, vai ser uma ponte para o tão almejado céu. Bons vôos a todos.”
Um cidadão atento ao discurso, brincou com o colega: “Com a merreca que eu ganho, se depender de avião pra ir pro céu, pode ter certeza que vou arder no inferno pra toda eternidade.”
Antes de descerrar a placa, como não poderia deixar de ser, o prefeito Ray-Ban proferiu um discurso. A peça de retórica foi longa, vinte e cinco laudas no estilo Fidel Castro, das quais, para não cansar o leitor e não irritar o editor, este colunista pinça o trecho mais representativo:
“...chorem, pregadores do atraso, oposição xiita e críticos de plantão. Chorem de inveja das plumas tucanas porque São João está definitivamente inserida no mundo contemporâneo. Não me venham de novo com essa conversa mole de Distrito Industrial. Não, não e não. Meus tímpanos não suportam mais tanta baboseira. Empresário cheio de erva-cifrão não é peão pra ficar reclamando de pavimentação em barracão de fábrica. Empresário não quer asfalto na porta da indústria. Ele quer, sim, é asfalto em aeroporto pra brincar com LearJet. Na mitologia grega lembramo-nos do sonhador Ícaro que, frustrado, viu o sol dizimar seu sonho ao derreter suas asas. Aqui em São João a conversa é outra. Não vou permitir que a imprensa marrom ou a inveja dos meus adversários sabotem o sonho da sofrida população.” Atônita e paralisada, a platéia ouvia o cordão de impropérios do “number one”, enquanto, sempre eles, os lambe-botas, cegos pela adulação, puxavam aplausos e louvores numa cena surreal.
Nerso da Sanjinha
Nerso da Sanjinha, definitivamente, é um homem público de hábitos simples.
Este colunista, cioso do compromisso de bem informar seus milhões de leitores, conseguiu agendar uma entrevista com o prefeito recém-eleito pra que ele avaliasse os primeiros trinta dias prefeitando nesta Sanja crepuscular.
Conferi sua simplicidade logo ao adentrar o gabinete para o bate-papo:
—Senta aí, querido... não repara na bagunça que pra cortar gastos eu dispensei a faxineira... eu mesmo tento dar uma ordem, mas como não tenho tempo, já viu, né... (elevando o tom de voz) meu Deus do céu, quequéisso?!... Kaju, vem logo aqui, Kaju, que troço afrescalhado é esse, Kaju? Pedi pro Johnny Marcel preparar um café pra receber o cronista e ele me manda essa bandeja cheia de prataria com esse monte de frutas, frios, geléias, o escambau... tira essa frescurada toda daqui, só quero café preto e bolo de fubá.
Kaju, diligente, fez as vontades prosaicas do chefe Nerso da Sanjinha.
—Prefeito, o senhor assumiu e adotou uma série de medidas austeras. Uma delas foi cortar o celular dos diretores municipais. Medidas como estas têm um caráter simbólico, mas na verdade são um contra-senso porque economizam muito pouco e excluem o primeiro escalão do governo de uma comunicação ágil. E essa comunicação instantânea é imprescindível em qualquer administração, pública ou privada. Estou errado?
—Primeiro: você tá errado, sim. Segundo: há alguns anos atrás ninguém tinha celular e a máquina funcionava sem depender destes brinquedinhos inoportunos... acho uma bobajada ficar invocando modernidades pra onerar as burras do erário. Terceiro: em nome de um suposto progresso tecnológico comete-se muita besteira. Um exemplo: lá nos idos de 1980 a Volkswagen tirou a Variant de linha porque julgavam ser um carro ultrapassado. Burrice. Até hoje não inventaram um carro com aquele porta-malas e que se enfia em qualquer estrada de roça. E, quarto: pedi ao Johnny Marcel que pesquise uma alternativa mais barata de comunicação. Pombo-correio, sinal de fumaça, código morse, sei lá...
—E computadores, prefeito, poderão ser usados?
—Sua pergunta vem eivada de malícia e galhofa. Nem vou responder. Só digo que esse mundinho ‘Uindios’ do Bill Gates tirou muito de poesia da vida. Quer coisa mais gostosa do que o som das teclas de uma velha Remington?! (faz um sonoro tec-tec-tec nostálgico).
—E na área da cultura, prefeito, algum projeto?
—O Johnny Marcel, sabe-se lá porque, quer incluir a Chattanooga no calendário oficial de festas da cidade. A idéia não me empolga. São João é terra de macho pra ficar aclamando aquela vozinha em falsete dos Bee Gees e aquele rebolado indecente do John Travolta. O que eu quero mesmo é que São João seja sede do Festival Nacional de Dança Matuta. Se a idéia vingar, eu e o Kaju vamos formar um grupo de catira. Pra arrebentar!
—Algo mais, prefeito? —Não, nada. Vai com Deus e pela sombra. E manda um beijão pra Ana, pra Josi e pro Laurinho.
Meninas do primário
Leio na grande mídia as notícias da sucessão presidencial. Ciro e Serra trocam cada vez mais farpas. É o duelo do malcriado contra o mal-humorado.
Lula incorporou de vez o “Lulinha Paz e Amor” criado pelo marqueteiro Duda Mendonça. Embalado pelo terno Armani ele foge de polêmica como o diabo da cruz. Inodoro e sem gosto, ele molda seu discurso de acordo com a platéia.
Garotinho, bem Garotinho não tem nada a perder, travestido de metralhadora giratória ele ataca tudo e todos. É o toque de humor na campanha. Quer atrair o eleitorado com frases e factóides, mas só tem conseguido provocar risos. O que, diga-se, não é de todo mal nesta campanha coalhada de chatices e rancores.
Já que os jornais não são fecundos pra esta minha mal e porca escritura, vou revirar a memória e servir aos leitores algo que os cronistas de antanho chamariam de mais apetecível.
Realmente leitores, vocês hão de concordar, Taciana e Renata eram, e talvez ainda sejam, coisas bem mais apetecíveis que esta enfadonha política tapuia. Éramos, eu e as duas, colegas nos bancos escolares naquilo que já foi chamado de ensino primário.
Na longínqüa tenra idade deste que vos escreve, (os escribas de outrora também adoravam este “tenra idade”) daquele final dos anos 70, minhas infantes paixões eram por estas duas moçoilas do velho e bom “Joaquim José”.
Paixão por duas?? Sim, é verdade, uma bigamia ingênua. Ingênua, tímida e platônica. Taciana e Renata nunca souberam de meus sentimentos e devassos pensamentos. Que, a bem da verdade, por ainda não estarmos na adolescência, não eram tão devassos assim.
Taciana era magrinha, tipo mignon, seus braços tinham muitos pêlos, seu rosto era de uma morna normalidade, nem bonita nem feia. Bonitinha, digamos. Inteligente ela era, isso sim. Muito inteligente. Tenho certeza de que gostei dela, mas tenho certeza nenhuma em saber o porquê do gostar. Enigmas do coração!
Na 3ª série, dona Mariinha, avó da Taciana, foi nossa professora. Recordo-me que, pra não levantar parentescas suspeições na classe, as provas da menina eram aplicadas pela dona Carmen Balestrin, a professora do outro terceiro ano. Ela ia bem do mesmo jeito, era “A” atrás de “A”.
Numa manhã, minha vó Fiuca me despertou dizendo que a Taciana estava na porta, me chamando. O coração acelerou, a boca secou e as pernas bambearam. Iria ela se declarar pra mim!? Amargo engano. Ela só foi passar o recado que haveria “amigo secreto” entre os alunos do catecismo. Sim, também éramos colegas de catecismo.
E a Renata? Ah, a Renata. Mulherão, ou melhor, meninona.
Morena, cabelos lisos, alta pra caramba, voz grave, ancas fartas e um rosto marcante. Bonito, sim, bem bonito. Mas, mais marcante do que bonito. Até o nome era imponente, destes de encher a boca pra falar: Renata Von Gossler.
Também era inteligente. Uma inteligência blasè, relaxada, que não era “cdf” nem demandava muito estudo. Sabia porque sabia, e pronto.
Renata era irmã gêmea da Roberta. Gêmeas diferentes que a genética chama de bivitelinas. Roberta não era feia, ao contrário. Mas sua beleza estava a léguas da irmã morena. Sim, Roberta era loira. Abismo, mesmo, entre as duas, era o intelectual. Os neurônios fartos na musa morena eram parcos na mana loira.
Com a Taciana eu ainda trocava umas poucas palavras. Com a Renata, não. Tinha medo. Era destas grandes e bonitas que intimidam os homens. Um mito.
Nesta pequena província, por incrível que pareça, nunca mais as vi. Ao que consta, estão casadas e, talvez, com uma penca de filhos.
Filhos estes que não mais devem estudar no “Joaquim José”. Uma escola pública decadente que não é nem mais sombra da excelência em ensino que foi há mais de vinte anos atrás.
Leozinho e Dalva
—Benhê, esse ano precisamos comemorar... você já pensou no que nós vamos fazer pra celebrar a data?
—Hã?!... data?! Ah, claro... não acredito que você tá lembrando. Como a gente vibrou dez anos atrás com o tetra da Seleção. Lembra?! Assistimos aos jogos lá no rancho do Mirtinho, fritando peixe, tomando cerveja e delirando com os gols do Romário. Época boa! Você tá certa, precisamos comemorar... vou ligar pro Mirtinho e ver se a gente consegue reunir de novo a turma.
—Que tetra, que Mirtinho, que turma, que Romário... tá doido... essa época eu quero é esquecer... você, o mala do Mirtinho e aquela patota de bebuns... vocês passaram um mês de fogo vendo o Romário botar pra dentro, mas na alcova que é bom, nada. A bola nem chegava perto da grande área. Leopoldo Augusto (quando ela fica brava, o suave Leozinho vira um contundente Leopoldo Augusto), trata de puxar a memória e lembrar a data importante que nós vamos comemorar esse ano.
Murmurando pra não ferir suscetibilidades, Leozinho tentou, sim, ele tentou, não digam que ele não tentou:
—Seria os 15 anos sem o Muro de Berlim? Ou os 70 anos bem vividos da tia Cotinha? Ou os 10 anos do Plano Real? Ou...
—Não fala mais nada seu estrupício desmemoriado... você me ataca os nervos... este ano nós vamos fazer 15 anos de casados.
—Noooossa! Verdade, querida... mil perdões... como eu pude esquecer. Dá um beijo aqui, môzinho (Chuac! Sim, esse é o som do beijo estalado). Vamos pensar numa coisa bem bacana.
Derretida com as desculpas beijoqueiras de Leozinho, ela sugeriu:
—Sabe, benhê, pensei numa coisa bem romântica, tipo uma viagem de navio, sem as crianças, só nós dois.
—Sei não... viagem de navio?! (faz careta de reprovação)... melhor não, eu passo mal com o balanço do navio... vomito até as tripas.
—Também podemos ir pra Serra Gaúcha, a Lú e o Carlos Eduardo foram e adoraram. Pensa, mô, nós dois grudadinhos, naquele friozinho. Ai delícia!!
—Frio?! Tá doida... Você vê quando vamos à Poços, é eu chegar na Cascata que o nariz começa a escorrer, a tosse ataca e as juntas doem. Odeio frio.
—E o Rio, mô? 40 graus de sensualidade, natureza exuberante.
—É, tá bom, 40 milhões de tiros e arrastões horripilantes. Nem morto!
—Tá bom, reclamão... o que você sugere?
—Pensei em comemorar com os amigos. Juntar a turma no rancho do Mirtinho pra um churrasco e, à tardinha, a gente larga eles lá, pára no Crepúsculo e deixa a jurupoca pular.
—Eu não devo estar ouvindo bem (dá uma vigorosa cutucada nos ouvidos), é isso mesmo que você está propondo pra comemorar nossos 15 anos de casados? Churrasco com turma, no covil do Mirtinho e ainda quer encerrar a palhaçada com jurupoca pulando em motel de quinta? Ora, Leopoldo Augusto, faça-me o favor...
—Oh, Dalvinha, nossos amigos, uma costelinha macia e o grand-finale em cama redonda entre paredes espelhadas. O que mais você pode querer?
—Nada, eu não quero nada, Leopoldo Augusto, põe o lixo pra fora, veste o pijama e vem dormir que amanhã é segunda e a gente tem que pular cedo.
Intenções, frustrações e publicações
Sento-me diante do micro, caro leitor, tendo em mente as melhores intenções. Sensibilizado com os prejuízos humanos e financeiros causados pelo trágico afundamento da plataforma da Petrobras, tenho o firme propósito de descobrir soluções para que acidentes do tipo não se repitam.
O meu nobre desejo não dura mais que alguns minutos. Impotente, percebo que meus conhecimentos técnicos no assunto são pífios. Entendo tanto de prospecção de petróleo e de engenharia naval quanto a Hebe Camargo de física quântica e pesquisa biomolecular.
Não, sofrido leitor, infelizmente não é este rascunho de colunista que vai recolocar nos trilhos a empresa xodó dos nacionalistas.
Minhas boas intenções continuam de pé.
Passeio pelos jornais procurando outro imbróglio de difícil solução prá eu meter minha colher salvadora. Leio que governo, empresários e sindicalistas estão buscando um desfecho para a questão do rombo nas contas do FGTS. Apesar de ser um leitor fiel do Luis Nassif, acho que não fiz direito minha lição de casa, pois reconheço minha total inépcia na intrincada questão.
Não, incauto leitor, infelizmente não é este protótipo de colunista que vai colocar luz no problema do FGTS e fazer com que FIESP, CUT e FHC façam um acordo benéfico para judeus e palestinos.
Ainda não perdi minha esperança de escrever algo edificante.
Nossos irmãos portenhos estão passando por turbulências econômicas de efeitos imprevisíveis, chamaram até o Cavallo de volta para que o tango não perca o ritmo. Repito o já dito acima: em questões econômicas sou um discípulo desleixado do Nassif e meus parcos conhecimentos na área não enchem uma xícara de café. Quero continuar apreciando as picanhas maturadas argentinas mas, desculpo-me com nossos vizinhos, não tenho nada para oferecer em troca.
Não, pobre leitor, infelizmente não é este esboço de cronista que vai ensinar o beabá ao Cavallo. Até porque já tem quadrúpede demais na história.
Minha mulher, compadecida das minhas frustradas boas intenções, quer tirar o pouco que resta do meu ânimo para remanejar a mobília da nossa sala de TV.
Mexo daqui e dali, puxando móveis e virando o tapete. Resultado, um completo desastre: a poltrona obstrui a abertura da porta, a claridade bate na tela de TV impedindo a nitidez das imagens e perdemos o espaço para a mesinha do telefone.
Nem grandes questões nacionais, nem economia argentina e nem mesmo uma comezinha tarefa doméstica. Nada. Minha capacidade de solução de problemas, se é que algum dia ela existiu, afundou junto com a plataforma citada no começo desta crônica. E como a dita cuja, está em águas profundas sem possibilidades de resgate.
Apesar desta cristalina inaptidão pra quase tudo, enfarado leitor, tem um editor sem juízo que publica o que eu escrevo e inacreditáveis duas dúzias de pessoas que lêem e gostam.
Não, enganado leitor, este pseudo-escritor também não sabe explicar tamanho absurdo.
Insidiosa moléstia
Manhã da última terça-feira e uma colega de trabalho recebe ligação do marido relatando que os Estados Unidos estão sendo bombardeados. Num primeiro momento acho que é pilhéria de mau gosto. Não era. O gerente liga a TV da agência e imagens de pânico e explosões cinematográficas são repetidas em todos os canais. A vida imitou a arte de Hollywood num dia de cão na ilha de Manhattan.
Inacreditável. São absolutamente inacreditáveis as imagens do ataque terrorista à Nova York. O ousado terror internacional perfurou o coração da América atacando ícones do seu domínio militar e econômico.
Na noite do mesmo dia estas linhas vão sendo paridas sob flashes e reflexões renitentes das estampas dantescas que a mídia propagou. Uma terça-feira horrível no calendário da humanidade.
A maioria da comunidade internacional, consternada, manifesta o pesar pela tragédia. Os palestinos, ao contrário, na eterna e insana guerra santa, saem às ruas e cenas de uma nauseante celebração do ódio esmurram a cara do mundo civilizado.
Não é de hoje que a Casa Branca atua com arrogância e prepotência no cenário político global. Mas, daí a querer usar o terrorismo como ferramenta de ação política contra o poderio norte-americano vai uma enorme distância. Em qualquer tempo, de guerra ou paz, não há justificativa para feitos do gênero.
Capitalismo globalizado, fanatismo religioso e opressão econômica às nações pobres. Este coquetel de fatores explica, em parte, o ocorrido em NY. Ou não explica nada. Nada. Não sei. Não consigo pensar. O choque provoca anestesia mental.
Sei lá pessoal, não é hora de julgar nada nem ninguém. É o momento de esquecer mercado financeiro, petróleo e dólar. O mundo precisa parar, ponderar e respirar.
A humanidade está padecendo de grave moléstia. O tumor do ódio se espalha como uma metástase fatal. Ou repensamos as relações políticas e econômicas internacionais ou seremos devorados pela doença.
p.s. Doença esta que se manifestou, também, com virulência na vizinha Campinas. O prefeito Toninho foi mais uma vítima da insidiosa moléstia.
Infância, Memórias e Viagens
Dia destes viajando a trabalho pela bela geografia montanhosa do sul das Minas Gerais fui tomado por um turbilhão de lembranças de viagens da minha infância. Boas lembranças e muita saudade.
Cruzar a divisa entre SP e MG é lembrar minha avó Fiuca que, sempre nestas horas, entoava a tradicional cantiga: "Ó Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais...", no que era seguida em coro por toda a família. Viajar com vovó Fiuca sempre foi recreio dos mais animados.
Dos meus primeiros cinco anos de idade emergem fragmentos de memória de viagens ao litoral. Praia de Itararé em São Vicente era o nosso destino.
Lembro-me muito bem do imponente (na época era) Opala verde-oliva do meu pai descendo a serra abarrotado de malas e bugigangas, embalado pela trilha sonora do Rei: "Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar...", berrava o então cabeludo Roberto Carlos no toca-fitas do potente Opalão.
Era de lei nas férias litorâneas de verão ir ao espetacular Circo Thiany que, sempre em Janeiro, erguia sua lona e deixava maravilhados os veranistas da baixada santista. Também não perdíamos o tradicional show de animais marinhos que acontecia num parque situado na divisa entre Santos e São Vicente. Ouço claramente, até hoje, o adestrador gritando em castelhano ao casal de golfinhos: "Flipper, Caroline, salvando a bonequinha", para delírio da platéia infante que ali estava.
Alguns anos mais tarde, sem meu pai mas com minha avó, nossas viagens ao litoral eram capitaneadas por meu primo, Zé Pedro, que conduzia-nos na superlotada Variant branca da minha mãe. Até hoje não entendo como cabia tanta gente e carga no velho carro. Zé Pedro, minha mãe, minha avó, tia Amanda, eu, meus dois irmãos e Zé Augusto, meu primo de Goiânia, além de toda a sorte de bagagem e quinquilharias do clã Buscapé. O bom astral de Janeiro e a ânsia por areia e água salgada faziam com que relevássemos o desconforto da viagem.
Destes périplos beira-mar não me esqueço do sabor inigualável do strogonoff de camarão da minha vó, dos siris degustados no restaurante Boa Vista e, não sei porque, da música Bandolins de Oswaldo Montenegro. Coisas da memória que a gente não explica.
Se, no verão, a praia era sagrada, nas férias de Julho o destino era alternado. Ora Belo Horizonte, ora Goiânia.
Em Belo Horizonte ficava a casa de meu tio Ivan, um próspero empresário da capital mineira. Meu tio mandava um Alfa Romeo com motorista particular buscar eu e meu irmão. Era a glória para duas crianças. Rumávamos até a capital das alterosas como príncipes caipiras esparramados no banco traseiro do luxuoso carro.
Meu tio tinha uma bela chácara nas cercanias de BH. Eram um verdadeiro deleite estas férias, quando brincava muito com Ana Paula, uma prima com quem eu tinha muita afinidade e verdadeira adoração.
Em Goiânia também gozei férias inesquecíveis. No planalto central tinha o monumental tobogã do parque Mutirama, um conjunto aquático fabuloso no clube Jaó e baciadas do delicioso pão de queijo da tia Mariana. No final dos anos 70 e começo dos anos 80, pão de queijo era uma iguaria rara por estas bandas do interior paulista. Comíamos até não poder mais.
Numa destas férias na capital de Goiás demos uma esticada até Brasília. No portão do Palácio do Alvorada vimos o então presidente Ernesto Geisel passar num Galaxy preto com persianas no vidro traseiro. Foi a primeira e única vez que aplaudi um ditador.
Bons tempos de uma época em que Hélio, meu pai, era um funcionário com carreira promissora no Banespa, Ana Maria, minha mãe, era professora estadual numa escola rural, Dona Fiuca, minha vó, era "o nome" em alta costura nesta cidade e o autor deste texto, além de adorar viajar com a família, era um devorador dos gibis do Cebolinha.
Hoje, um acidente automobilístico fez com que meu pai não esteja mais entre nós, minha mãe está aposentada e perdeu o pique de viajar, Dona Fiuca costura para os anjos na eternidade e este escriba luta com a vida e contra seu espírito perdulário para juntar uns trocados e continuar viajando.
p.s. A semana atribulada faz com que o colunista utilize um texto não inédito lavrado a quatro anos atrás. Um prato requentado sim, é verdade, mas sem falsa modéstia, com um renitente sabor de quero mais.
'Inducacá'
Há pouco mais de 11 anos atrás, um casal de adolescentes com a razão soterrada por uma avalanche de hormônios, concebeu uma criatura para vir a este mundo. O ato foi impensado (ou melhor, foi pensado em função do prazer, não da paternidade), mas a conseqüência, o filho, foi o quê de melhor poderia acontecer na vida de um moleque que mal e porcamente sabia onde estava seu nariz.
Às 18 horas do dia 23 de Dezembro de 1989 o pediatra João Carvalho abriu as portas do centro cirúrgico da Santa Casa com uma criança enrolada num pano azul e exclamou ao embasbacado atirador do Tiro de Guerra:
_ Pai, é homem!!!!
As palavras ditas pelo médico e a visão daquele pequeno ser todo enrrugado e com o saquinho roxo foram um divisor de águas na vida do então teenager imberbe.
Num primeiro impulso o pai-moleque caiu num choro convulsivo que misturava alegria e espanto. Logo depois, refeito do impacto emocional inicial, pensou: meu Deus, e agora?
Os anos se sucederam e um menino bonito, inteligente e carinhoso crescia para alegria e orgulho dos pais. Corujices à parte, esta profusão de adjetivos é a mais pura verdade. O menino, tenham certeza, é bom demais.
Como a paternidade muda a vida de uma pessoa. Antes dela, pensamos muito no eu, depois, tudo que fazemos, pensamos e sentimos é em razão dos rebentos. E tudo com uma satisfação enorme, com uma corujice tamanha, com um orgulho monumental, enfim, com um amor impossível de medir.
Laurinho, menino único, nestes 11 anos de vida fui um pai que teve algumas falhas, muitas falhas, mas posso dizer que tudo que fiz e faço é sempre com a melhor das intenções e, lhe afirmo que hoje sou um homem muito melhor do que há alguns anos atrás. E você é o grande responsável pela melhora da minha condição humana.
Hélio, meu pai e seu avô, não está mais entre nós. Mas, lá em cima, eu sei, ele está fumando seu cachimbo e comentando com o Todo Poderoso o orgulho danado que sente do neto.
P.S. O leitor deve estar perguntando o quê é "inducacá". Na verdade, nem eu sei. Quando Laurinho começou a balbuciar as primeiras palavras ele soltou este aglomerado de sílabas. Hoje, ainda, brincamos muito tentando traduzir o quê o então bebê queria dizer com esta palavrinha exótica. Ainda não descobrimos.
Hélio, o pai
O ano era 1976 e o mês, Fevereiro. Numa destas boçalidades da existência humana, um acidente automobilístico tirou a vida de um homem, um grande homem, pai de dois filhos, quase três, porque sua mulher estava grávida. Este último rebento deu seu primeiro choro dez dias após o estúpido desastre.
Meu irmão caçula não conheceu o pai.
Eu também conheci-o muitíssimo pouco. Quando a eternidade veio buscá-lo minhas primaveras eram somente cinco.
Hélio do bigode espesso. Hélio do Banespa. Hélio de longas baforadas no seu cachimbo. Hélio do Opala verde e das maravilhosas viagens com a família. Hélio dos discos de vinil, de Roberto Carlos, de Chico Buarque, de Martinho da Vila, de Benito di Paula.
Hélio de poucas lembranças e muita saudade.
Hélio amante da carne vermelha. Conta minha mãe que ele fazia questão de ir ao açougue do seu Dito Sinhá para escolher o melhor corte. Depois, deleitava o paladar com um belo bife. Os cromossomos foram vigorosos e legaram a este escriba e seu filho o mesmo apreço pelo traseiro bovino. Laurinho e eu perdemos a razão por uma picanha sangrando.
No curto período em que moramos na vizinha Vargem Grande, as tardes de sábado eram sagradas. Passeios de carro, onde eu viajava em pé no banco de trás, seguidos de pit-stops na Padaria do Zé Candinho para saborear suas lendárias bombas de chocolate. Naquela época bomba não era um doce banalizado como hoje. Era iguaria fina de fim-de-semana.
Meu vizinho e amigo desde o berço, Cirto, conta uma história passada alguns meses antes de sua morte. Com sua habitual veia cômica, Cirto relembra um dia que fomos nos entreter com pedalinhos em Águas da Prata. No fim do passeio paramos no bosque para comer o tradicional milho-verde. Eu preferi pastel. Vendo o filho atrapalhado com aquela enorme massa e insignificante recheio, meu pai fuzilou com sarcasmo: “Ô Cirto, olha só o pastel do Lauro Augusto, parece até envelope de ofício!!!”
As vezes bate uma melancolia, um inconformismo com os desígnios divinos por ter me privado tão cedo da convivência paterna. Numa altura da minha adolescência cheia de conflitos, duvidei até da existência de Deus.
Minha mãe, devo reconhecer, fez o que pôde e o que não para transformar em gente aqueles três moleques. Sofreu mais do que todos, mas, no saldo final, sem falsa modéstia, reconheço-me como bom fruto da educação “anamaria”. Este reconhecimento, entretanto, não me tira a convicção de que, se meu pai fosse vivo, tanta coisa seria diferente pra melhor na vida da minha família. Não falo só da presença física do homem, falo, também e principalmente, do timoneiro que conduz a embarcação para águas tranqüilas.
Lá no plano celestial, imagino meu pai cachimbando e papeando com o “Homem Barbudo” sobre os rumos da carreira profissional do filho mais velho: “Ô Chefe, trabalho em banco é tão estressante. Será que o menino quer se matar de trabalhar como o pai?”
Aqui do andar de baixo o neo-bancário descendente responde:
“Pai, no trabalho quero ter o mesmo sucesso que você teve. Mas não é o mais importante. Quero ser seu espelho na plenitude da condição humana. Quero ser o paradigma de homem e pai que você sempre foi.”
Gula
Nunca passou necessidade, tampouco foi rico. Teve uma infância simples, de gente operária e trabalhadora, mas nunca foi afligido por grandes carências.
O negócio próprio lhe trouxe um bom dinheiro e uma certa posição social. O conforto material, a ansiedade da correria cotidiana e os Biotônicos Fontoura que consumiu quando criança fizeram dele um glutão.
Um homem de apetite voraz, que se alimenta com prazer, que come mais para satisfazer seus desejos do que suprir o organismo com nutrientes. Adquiriu uma bruta afeição pelas boas iguarias.
E, para ele, boa iguaria não é sinônimo de refinação. Com um paladar democrático transita com naturalidade entre a buchada e o foie gras, entre a cachaça e o Beaujoleais Noveau.
No despertar do dia-a-dia, o fundamental desjejum é uma injeção de ânimo para enfrentar a labuta.
Na mesa do breakfast, a fusão de cores, texturas e sabores é a preliminar da maratona gastronômica que se dará ao longo do dia.
O básico é sempre básico. Não pode faltar leite gordo, café forte, manteiga caseira e pão francês fresquinho. Os acessórios existem para quebrar a sobriedade do básico, para encher de cores os tons pastéis. Coadjuvando o principal, atuam também: pães de queijo, torradas, presunto, queijo prato, geléia de morango, suco de laranja, mamão papaya, melão e um branquíssimo queijo mineiro. Incursões de acepipes além-fronteiras são mais do que benvindas: os franceses brioches e croissants e o hard-food ovos com bacon dos ianques. Pra não ser acusado de americanismo, coalhada síria com mel e aveia evocam os povos do Oriente Médio.
A pausa necessária entre a manhã e a tarde abre espaço para mais uma sessão prazerosa de trabalho com as mandíbulas.
Aquilo que, nós brasileiros, chamamos de almoço é aberto com o que os italianos chamam de ante-pasto e os franceses de couvert. Nesta prévia, reinam baguetes com berinjela, cebola e uva-passa e/ou patê de grão-de-bico com torradas, ou ainda, pão italiano, carpaccio e generosas porções de queijo gorgonzola da Velha Bota.
Na refeição propriamente dita, o modesto filé com fritas é um delicioso curinga em ocasiões de parcas opções. Quando estas são fartas, uma boa pedida é o pernil de cordeiro com molho de hortelã, acompanhado de arroz branco e batatas souté. Ele gosta de tudo, mas tem uma queda especial pelos frutos-do-mar. Pode ser um salmão básico com creme de maracujá, pode ser lagosta grelhada regada a chope gelado ou as indescritíveis miscelâneas da cozinha litorânea, materializadas em suculentas caldeiradas de mariscos e crustáceos e na espanholíssima paella valenciana.
No pós-salgados, o sabor delicado do creme de papaya, a refrescância de salada-de-frutas com sorvete de abacaxi ou a brasilidade de um indefectível quindim. E falando em brasilidades, nosso guloso personagem desta crônica tem verdadeira loucura por uma goiabada cremosa lambuzando grossas fatias de queijo Minas.
Entremeando as refeições principais, lanches rápidos ocupam os vácuos temporários do estômago. As vezes um sofisticado crepe de queijo num Café com decoração européia, outras vezes um croquete ou coxinha acompanhados de tubaína gelada em qualquer boteco de esquina.
O jantar, bem o jantar coroa a jornada devoradora do gourmet. Novamente o seu paladar pluralista se manifesta na última refeição do dia. Podendo ser um disco napolitano de massa, a pizza para os íntimos; pão de fôrma recheado com presunto, queijo e tomate, prensado e aquecido, que os mais chegados chamam de tostex; ou menus sofisticados como filé de perdiz com trufas e molho de manga ou ainda entre tantas outras divindades da boa mesa, uma tradicional bacalhoada portuguesa acompanhada de um Bordeaux de boa safra.
O doce do pós-jantar vem no gosto nem tão doce de um chocolate meio amargo e no sabor frutal de um cálice de licor de jabuticaba.
Refestelado na poltrona, ele rememora os sabores do dia e, embriagado pelas baforadas em um legítimo Montecristo, arquiteta com uma imensurável expectativa o cardápio do “day after”.
Gê, Bê e o coque cebola
Administrador diligente que é, o governador Geraldinho convocou as principais lideranças paulistas pra um desjejum no Bandeirantes, onde, entre sucos, croissants e geléias, seria analisado o quadro político pós-eleições municipais.
O presidente da Assembléia Legislativa adentrou a ala residencial do Palácio em visível estado de esgotamento. Profundas olheiras denunciavam uma noite mal dormida.
Geraldinho, alerta como um bom escoteiro, notou o trapo humano e puxou prosa pra elevar a moral do tucano-mor de Sanja:
— Ressaca braba, hein Bê... a festança nos Crepúsculos deve ter sido de arromba. Me conta, e aí, botamos o Turquinho no bolso? O Plinião já mandou fazer o manto pra ser coroado dia 1º de Janeiro?
— Então, Gê... pre-pre-preciso te contar uma coisa... uma tragédia... não conseguimos nem três mil votos. O Turquinho levou. Tomamos uma coça de arder o lombo.
— Tá de brincadeira, Bê... uma superestrutura, o apoio maciço da máquina, a unção do terceiro homem do Estado e vocês tomam um vareio deste, de perder o rumo?! Olha Bê, tô muito enfezado. Lá em Pinda, quando um companheiro pisa na bola a tradição manda descer o rebenque no lombo. Pra você não dizer que eu sou ruim, vou ser piedoso do seu, que tá em carne viva com a guasca dada pelo Turquinho. Nestes casos, reza os costumes que você deve padecer da reprimenda número dois: meia dúzia de coques cebola e ficar sem tomar o café-da-manhã.
Resignado, Bê fez cara de arrependido, dobrou o pescoço para a frente e ofereceu o cocoruto aos cascudos corretivos do governador Geraldinho.
Limpeza
A assepsia foi quase completa no Legislativo de Sanja. Dos quatro reeleitos, só dois apoiaram o megalomaníaco projeto da construção do novo prédio da Câmara. Não tenho certeza se o eleitorado ponderou isso na hora de teclar o voto. Quero crer que sim. Quero crer que a cidadania responsável soprou austeridade onde só ventava a gastança faraônica e o desprezo ao erário público.
E ainda falando em Câmara, os novos eleitos não assumiram e já tem gente reclamando do excesso de homens de branco. As esquinas profetizam que a pauta das votações vai ser ditada pela “Bancada do Estetoscópio”. Será?
“Brimos”
Turquinho Nicolau recebe votação estrondosa com a bênção do Nassif. Fernando Nagib surpreende e é o segundo mais votado para a Câmara. Da Esportiva chega a notícia que os “brimos” Nasser, Talih e Ricardo, destroçam os adversários e vão presidir o clube no próximo exercício.
Não demora muito e a inteligência americana baixa por esta Sanja crepuscular pra investigar supostas ramificações da malfadada “Máfia do Quibe”.
Que Alah nos proteja!!!
Emoções e frustrações
Desempregado, com uma patologia que inspira cuidados e necessitando de medicamento dispendioso, Luis foi pedir auxílio à Saúde de Sanja.
Contato aqui, contato ali, e o rapaz logrou ser (mal) recebido pela nada salomônica diretora municipal Marta Salomão.
Dona Marta, rasgando papéis e esvaziando gavetas, mal mirou os olhos do munícipe e deu de ombros à rogativa num indelicado empurrão com a barriga: “Estou afivelando as malas e nada posso fazer. Peça ao próximo prefeito.”
Não satisfeita em perpetrar destratos, dona Marta passou a disparar julgamentos absurdos: “Você tem condições de pagar consultas e comprar o remédio.”
Sentença tão disparatada só pode ter brotada de um fígado amargo ou de um ranço de mau perdedor.
Descortesia e cara feia são atitudes ignóbeis que podem até ser relevadas se o administrador público cumpre a sua função e atende aos anseios do cidadão. Agora, vamos e venhamos, é o fim da picada juntar bestialidade de modos com inépcia funcional.
Apagar das luzes bem triste este, hein dona Marta? Enquanto gavetas são limpas e malas afiveladas, a ralé carece de remédios e ainda é obrigada a aturar grosserias.
Se seu papai eu fosse, dona Marta, palmadinhas na bunda e não ganhar presentinho de Natal seriam a justa reprimenda.
Sucatão
Viajar diariamente pra ganhar o pão em outras plagas é coisa das mais chatas. Pegar estrada pensando no trabalho, convenhamos, não é obrigação das mais agradáveis.
O escriba há anos verte o suor em paragens guaçuanas e, acreditem, discorda das assertivas do parágrafo inicial. Ou melhor, discordava até a semana última. Explico.
Cinco nativos desta Sanja que trabalham em Mogi Guaçu, incluindo o pífio colunista, se juntaram pra compartilhar o percurso e economizar uns trocos. Os membros da caravana laboral acordaram em viajar no velho Santana do Vardão.
Um auto puído e sem manutenção, um condutor desatento, uma turma bacana regada com doses de galhofa, ironia cáustica e muito companheirismo fizeram o inusitado mix que pariu a lenda: o Sucatão. Mais que um carro, um conceito de vida.
Idas e vindas foram permeadas por discussões políticas e esportivas, por gozações que beiravam linchamentos morais, por dramas divididos, por gargalhadas e por muita, mas muita cultura inútil.
Sem nomear os bois, tinha muquirana incorrigível, perdulário idem, tinha tagarela de 360 palavras (e gafes) por minuto, tinha meninão mimado, tinha zombeteiro implacável, tinha até uma carola desencaminhada.
Circunstâncias outras e o eterno nomadismo dos bancários estão desmembrando o Sucatão.
Dias atrás, já desfalcado, o Sucatão cumpriu seu derradeiro trajeto. Vardão, seu rebento caçula e este proseador participaram da histórica viagem final. Uma viagem de poucas palavras e muita emoção. Com um nó na garganta prometi estas linhas ao Vardão.
Do portão de casa acompanhei a velha lata singrando pelo largo asfalto da Tereziano Vallim. Um filme rápido veio à mente. Um filme com enredo nostálgico. Um filme que renova minha crença nas pessoas e na vida.
Até 2005
A coluna agradece e deseja Boas Festas aos leitores e finda o ano citando uma frase do genial cronista José Roberto Torero, grafada num ginásio da Olimpíada de Sidney, em 2000, sob a emoção de ver e ouvir meia dúzia de brasileiros entoando o Hino Nacional: “Confesso que, ao ouvir aqueles acordes e ver aquelas cores fortes e indiscretas, lembrei dos nossos risonhos lindos campos e até achei que eles têm mesmo mais flores. Tive vontade de dar um brado retumbante e, olhando para o céu risonho e límpido da Austrália, tive uma sensação verdadeiramente feliz, porque a gente anda e tresanda, mas as coisas que nos emocionam são sempre as mesmas.”
Dona Lindona
Um boteco estrelado pra esta Sanja crepuscular. É o que eles queriam. Bons de copo, cheios de idéias e atrás duns trocos, Zerbetto Brothers, Gilberto Sibin e patota, puseram na cachola que a night destas bandas caipiras nunca mais seria a mesma. Estávamos no final dos anos 70 e o ‘Tekinfin’ ainda era um bar incipiente.
O local escolhido era um subsolo infecto lá no comecinho da rua São João. Por razões óbvias a taberna foi batizada de ‘Porão’.
E o cardápio? Nada de convencional. Drinques, lanches e petiscos com pedigree do melhor da Paulicéia desvairada.
A criação deste menu consumiu dias de peregrinação pelos points que ferviam na noite paulistana. Cardápios foram surrupiados de cafés do Bexiga e de pubs dos Jardins. É improvável dizer que a pesquisa foi chata.
Após a maratona de cartas surrupiadas e acepipes devorados, o estado-maior do ‘Porão’ se reuniu num etílico benchmarking pra bater o martelo acerca do menu.
Martelo batido e entre as escolhas estava o sanduíche beirute. Prevenidos, os empresários da noite mandaram vir toneladas da alma do beirute: o pão sírio dos “brimos” da 25 de Março e adjacências.
Dias antes da abertura da casa descobriu-se que os pães haviam se deteriorado. Todo o “oriente médio” estava tomado por um asqueroso bolor. Daqueles bem verdes e aveludados.
A rede de contatos foi acionada pelo vozeirão do Celso Zerbetto. A emergência pedia o socorro ligeiro da sogra paulistana. Dona Lindona ouviu os clamores via DDD:
— Dona Lindona, sogrinha do coração, pelamordeDeus! desce na 25 e manda pra cá trocentas dúzias de pão sírio. Vamos abrir o boteco e o menu tem que estar completo.
Solícita com o genro, Dona Lindona atendeu as preces do vozeirão e dia seguinte eram descarregadas nas imediações da Estação trocentas dúzias de... chacha (os “brimos” me perdoem se a grafia estiver errada), um pão árabe finíssimo do tamanho de uma toalha de rosto. O pão era sírio, mas inapropriado para o beirute.
Celsão teve um insight-gastronômico-genial: estendeu a “toalha” na mesa, cobriu com maionese, rosbife, tomate, alface e queijo e dobrou sucessivamente a folha síria recheada. O insólito embrulho ainda padeceu de outra invencionice zerbettiana: foi pincelado com densas camadas de geléia de morango. As testemunhas da grande sacada explodiram em gozo ao provar o sanduba. Nascia ali o Dona Lindona, um ícone da gastronomia sanjoanense. Um tesão agridoce!
Anos depois, o ‘Porão’ já com as portas baixadas, a ferveção na Sanja-night era no ‘Salamalec’. A viuvada do Dona Lindona pediu ao proprietário da nova casa que introduzisse a iguaria no cardápio. Conseguiram. Celso Zerbetto passou o know-how do manjar à cozinha do ‘Salamalec’. A orfandade dos glutões agradeceu. Bem verdade que nesta época o Dona Lindona sofreu com hereges variações. Tiveram a ousadia de substituir a geléia por requeijão. Os fundamentalistas protestaram em vão contra a opção queijeira.
‘Porão’ e ‘Salamalec’, hoje, apenas vivem na memória desta Sanja, Celso Zerbetto só quer saber de pedras nobres e este escriba enche a boca d’água pra que algum bem-aventurado restaurateur resgate o Dona Lindona e o devolva ao circuito botequeiro desta província crepuscular.
Do seu prórpio veneno
Tomado por descomunal preguiça, meu pai, neste tedioso 21 de abril se abstém de perpetrar parvoíces pra enviar ao Correio. Enquanto ele fica lá, largado e babando no sofá, eu corro aqui pro micro e encho umas linhas que pouparão o editor Reberson de alguns chiliques e papai-colunista da demissão.
Pai, essa moleza vai fazê-lo provar do seu próprio veneno. Você que gosta de ficar, como bem disse o Zezinho Só, metralhando pra tudo que é lado, vai ter que engolir umas verdades estampadas na sua própria tribuna.
Você, querido papai, assina a Veja, lê a Folha todo dia, tem TV paga, tem internet em casa e no trabalho, em suma, é um homem bem informado. Papai, com tanta informação por que diabos você insiste em assistir ao Jornal Nacional bem na hora dos Simpsons? E não adianta falar: “vai assistir no seu quarto, moleque”. Eu quero ver o meu desenho na TV grande da sala, entendeu?
Pai, nos últimos meses você emagreceu bastante. Esse seu regime tá enchendo de orgulho todo mundo daqui de casa. Mas pai, preciso te dizer uma coisa: você já pode se conceder uns pequenos prazeres da mesa, sem grilo nem paranóia. Seja um homem saudável, mas não precisa posar de exemplo magnânimo de bons hábitos. Até porque mamãe e eu sabemos que leite condensado e Coca-Cola não se evaporam na madrugada.
“Friends” é um seriado legal, eu adoro. Mas você gostar, pai, tenha paciência! Uma temática adolescente, boboca, e fica você lá na frente da TV dando umas gargalhadas escandalosas. Tem dó, vai! Ah, pai, outra coisa que não combina mais com a sua idade são esses seus óculos coloridos e moderninhos. Ridículos. Pai, você já é quase um gerente de banco, tem que ter uma postura mais sóbria e se livrar destes adereços tipo “mundinho fashion”. Outro dia um amigo viu você chegando do trabalho e perguntou horrorizado: “seu pai trabalha de sapatênis?” Morri de vergonha, pai.
Outra coisa sua que já encheu, pai, é essa sua mania de botar apelidos nos garçons dos lugares aonde a gente vai: “The Best”, “Agnaldo Timóteo”, “Sidney Magal”. Coisa mais tonta. Só mesmo aqueles seus amigos bajuladores pra rir de tanta bobeira.
Você adora se vangloriar dos confetes aos seus textos, né pai? Mas as críticas e os erros apontados você joga pra baixo do tapete, né seu malandro? Naquela crônica sobre o Caetano, publicada uns meses atrás, você grafou em certo trecho: “...os baianos do Tropicalismo vão buscar inspiração nas margens do rio Sena...”. Caetano e Gil se exilaram em Londres, pai. A bem da boa geografia você deveria dizer que a inspiração européia foi buscada nas margens do Tâmisa. Né não, pai?
Bem, leitores, daria pra preencher todo este jornal “lavando roupa suja”. Mas deixa eu parar por aqui porque já ouço lá da sala uns gemidos guturais. A fera tá se espreguiçando. Aliás, costume esquisito esse de acordar grunhindo.
A transição
Passado o calor da campanha, feridas vão sendo cicatrizadas e, num gesto de civilidade política e respeito ao interesse público, os prefeitos, atual e eleito, agendam reunião de transição pra uma troca de figurinhas.
Informado do colóquio, este colunista rogou à assessoria do alcaide Teixeirinha uma autorização pra testemunhar o encontro. Dudu Firewall, sempre ele, fiel comissário dos ‘oitoanostucanos’, brecou minhas bisbilhoteiras intenções.
Abelhudo, o escriba evocou a amizade de infância pra insistir com Dudu. Creiam, leitores, o gélido coração do Dudu amoleceu. Não a ponto de franquear minha intrusa presença entre os poderosos, mas num briefing detalhado das três horas do diálogo palpitante travado entre Nerso e Teixeirinha. Por limitações de espaço, a coluna se reserva o direito de publicar os ‘melhores momentos’:
—Sabe, Laert, no começo do seu governo eu acreditava que você tinha uma visão humanista da coisa pública. Tanto acreditei, que aceitei integrar a equipe como diretor de departamento. Ledo e ivo engano, meu caro. E falo isso sem qualquer resquício de revanchismo. Falo com uma ponta de tristeza em ver uma liderança tão jovem dar de ombros aos anseios da plebe trabalhadora pra gerir a cidade norteado pelos interesses de meia dúzia de oligarcas. Eu tentei lhe abrir os olhos, querido, mas você viu conspiração onde só existia apego ao bem público e compaixão com os menos favorecidos. Você administra como um autêntico ditadorzinho, não ouve a voz das esquinas, centraliza as decisões e comanda a máquina com rompantes fidel-castristas. Triste...
—Ao contrário do que você brada, Nerso, sou um democrata que aceita com serenidade a vontade soberana das urnas. Aceitar, entretanto, não significa concordar. Não concordo porque acho que a cidade vai retroceder sob a sua batuta. E vai retroceder porque a administração pública não tem mais espaço pro romantismo dos anos 70 e 80. A gestão, hoje, tem que ser profissional, numérica, planilhada, plugada com conceitos de qualidade total e antenada com os gurus do mundo acadêmico. Sei que você gosta de passar a imagem de um homem simples, que mete o pé no barro, dispensa a gravata, põe um capim no canto da boca, fala ‘caipirês’ e se mistura os pobres como se fosse um deles. Isso é bacana, Nerso, mas só funciona bem em novela das 6. O trato da coisa pública requer menos performances matutas e mais profissionalismo.
—É, Laert, o salutar do regime democrático é que ele abarca essa diversidade de pensamento. Ora governam uns que são guiados por planilhas e gráficos do Excel, ora governam outros que não decidem sem um olho-no-olho com a ralé. Uns usam o notebook sob ar-refrigerado, outros usam caneta e bloquinho de papel sentindo o cheiro do povo.
—Tem razão, Nerso, uns são talhados pra dirigir Real Madrid e Barcelona, outros ralam pra botar em campo Bonsucesso e Olaria.
A tarde caiu junto com o fim da troca de farpas. Antes das despedidas, os prefeitos se dirigiram à sacada do gabinete. Contemplando o majestoso crepúsculo, concordaram que não há nada melhor que sorvete de macaúba, chácara no Bairro Alegre, chope no Tekinfin, caminhada no Mantiqueira, café na Dona Gertrudes, pão francês da Dona Elza, peixe no Foguinho, cinema no Ouro Branco e morar a dois passos da Tereziano Vallim.
A lógica gélida dos Sistemas
O ancião sentou-se à minha frente e despejou um rosário de lamentações. Tinha a voz cansada, própria de quem usa as cordas vocais por setenta e poucos anos.
Sua face era riscada por linhas de expressão. Riscos delatores de uma vida sofrida, injusta com os menos favorecidos.
Quase quarenta anos de labuta deveriam ser premiados com uma aposentadoria razoável, que permitisse uma velhice digna. Uma velhice em que as preocupações seriam passeios com os netos, bailes da saudade, pescaria e jogo de dominó.
Não. Não neste pedaço de mundo chamado Brasil. Gozar de uma terceira idade como a imaginada no parágrafo acima, é utopia para 95% da velhice tapuia.
Voltando ao velhinho sentado à minha frente... Ele recebia míseros cento e oitenta reais do INSS, dinheiro ridículo que não dava pra nada. Não passava necessidade porque fazia uns bicos como eletricista de pequenos serviços. Só não trabalhava mais por causa da saúde debilitada, que o impedia de despender grandes esforços físicos.
O velhote estava pleiteando a este escriba, que é soldado raso no exército do sistema bancário, uns caraminguás para, como ele mesmo disse, “dar um trato na saúde da patroa.”
Recolhi seus documentos, preenchi o cadastro e outros documentos burocráticos de praxe. Solicitei ao aposentado que voltasse no dia seguinte para, depois da análise de crédito, ser comunicado da liberação ou não do dinheiro.
Na manhã seguinte ele chegou à porta da agência antes do horário de expediente. Me aguardava ansioso para colocar uns trocados no bolso e, com eles, “fazer uns exames caros na véinha.”
Esta abstração fria que o planeta informatizado convencionou chamar de “Sistema”, negou ao pobre aposentado os quinhentos reais pleiteados. O Sistema escarafunchou os órgãos de crédito e descobriu uma restrição cadastral de três anos atrás. Uma dívida que, segundo ele, foi contraída pelo cunhado usando indevidamente seu nome.
Acreditei no velho, mas, sem outra saída e resignado, obedeci o “crédito negado” do Sistema. Com o lombo curtido pelas chicotadas da vida, ele, o ancião, teve forças pra sair sorrindo e ainda me dizer: “Tem nada não, filho. Nóis arranja outro jeito.”
O Sistema cumpriu seu papel, mostrando que existe para brecar atos movidos por impulsos emocionais de ocasião. Sua existência é mais do que lógica no mundo dos negócios.
Mas, no íntimo, papeando com meus botões, abstraio toda lógica gélida do “business world” e enxergo uma enorme dívida da sociedade para com os mais velhos. Uma dívida que Sistema nenhum jamais vai reconhecer.
Uma dívida que me dá uma bruta vergonha da condição humana.
A entrevista
Depois de incansáveis contatos com a Assessoria de Comunicação, finalmente, o prefeito, compadecido deste arremedo de repórter, aceitou meu pedido de entrevista.
Querendo dar um toque de informalidade à conversa, o alcaide Teixeirinha recebeu-me no seu ostentoso apartamento de quatro suítes, localizado no coração da cidade.
No living faustosamente decorado, Laércio Teixeirinha, enquanto acariciava seu enjoado poodle toy, respondeu algumas questões levantadas por este inquiridor destemido que, até quando permitirem, ocupa nobre espaço na página dois deste semanário.
Ao pingue-pongue, amigos leitores:
Eu: Prefeito, o senhor não acha que muito pouco tem sido feito para que a cidade possa trilhar firmemente no rumo do desenvolvimento?
Ele: Meu jovem, esta sua interrogação está irremediavelmente contaminada por interesses políticos espúrios. Você deve ser um agente da oposição, travestido de jornalista, que tem como missão colocar-me em maus lençóis. Não vai conseguir, o eleitor não é mais bobo...
Eu: Mas prefeito, fiz uma simples pergunta...
Ele: Simples nada, isto é uma arapuca... Mas vou me safar... Seu questionamento tem um verniz de simplicidade, porém, implícitas nesta reles indagação, estão traiçoeiras forças ocultas, que têm como objetivo maior desestabilizar o meu governo. Governo que, diga-se de passagem, está sendo o melhor da História do nosso município.
Eu: O quê faz o senhor pensar que a administração atual é a melhor da História?
Ele: Não é o quê. É quem. Todo dia jantando naquela mesa (o prefeito aponta o indicador para a mesa de mármore Carrara da sala de jantar), minha mulher e meus filhos não se cansam de repetir que estão deveras orgulhosos de mim, que meu governo vai deixar grandes marcas na História. Vou duvidar deles? Eu não! Até meu primo, o advogado direitista Cassinho Carabina, que desde criança sempre foi um crítico feroz de tudo que fiz, anda me elogiando em rodas de amigos. E a Neide, ah a Neide (dá um longo e suspeito suspiro), minha empregada, nem te conto. A Neidinha só me falta colocar num altar de tanto que ela gosta do “jeito Teixeirinha de prefeitar”.
Eu: O senhor não acha que estas pessoas são suspeitas pra opinar? O povo também acha isso do seu governo?
Ele: (irritado e com a voz elevada) Eu já esperava isso de intelectualóides petulantes como você. Essa babaquice sociológica de invocar o povo por qualquer bobagem é bem típica de idiotas reacionários. Ora, moço, o povo é mera minudência. Tenho uma relação muito sazonal com o povo. Gosto muito da plebe rude, mas este nobre sentimento só se dá de quatro em quatro anos. ( com um cinismo atroz) Estou fazendo análise para descobrir o porquê deste gostar tão inconstante.
Eu: O espaço está aberto pra suas considerações finais.
Ele: Antes de terminar, quero tranqüilizar os cidadãos para não se preocuparem com o Antraz. Ainda ontem enviei uma lei à Câmara proibindo a entrada de qualquer bacilo estranho no perímetro do município. A polícia tem ordem pra prender qualquer bactéria ou microrganismo rebelde. Bem, finalizo dizendo com muito entusiasmo que qualquer medida conjuntural de ordem antropológica e macroeconômica que venha a ser tomada em razão das fortes tormentas globalizantes que abalam o planeta, será precedida de minuciosa análise, para que a sua implementação não venha acarretar danos extraordinários no trato da coisa pública. Fui claro?!
Eu: Claríssimo, prefeito, claríssimo.
Sábado, Dezembro 18, 2004
Presentinhos
Leitores do Correio apontam uma veia crítica e irônica do colunista para com o establishment desta Sanja crepuscular.
O escriba é compelido a concordar com os missivistas. A coluna tem vocação pra cutucar o poder. Bem verdade que os textos toscos das sátiras infames não provocam sequer cócegas nos seus alvos. De qualquer forma, a bandeira da crítica galhofeira aqui está fincada e daqui ninguém a tira.
Espírito de Natal, contudo, é o sentimento que faz o escriba atenuar a acidez do verbo e oferecer regalos natalinos a Nelsinho e Laert.
Dentre as inúmeras incompetências do colunista está a de não saber presentear ninguém. Como me comprometi a sugerir os mimos, fui atrás de socorro no mundo virtual. E-mails foram disparados e chats foram invadidos. Pingaram meia dúzia de sugestões, algumas publicáveis e outras cabeludas. Em nome da moral e dos bons costumes, este espaço acolhe só as primeiras.
Prefeito Laert
Uma passagem só de ida para Tkisi, uma bela e gelada estação petrolífera no norte da Rússia, foi a sugestão de um leitor sanjoanense, ora exilado na Itália, que prefere não se identificar.
Klauss escreve pra dizer que não daria nada. Simplesmente mandaria matar o autor destas linhas, pois assim livraria ele e Laert de um pentelho cronista. Boa Klauss, só espere passar esse fim-de-ano porque eu gastei os tubos em scotch whisky e não queria passar desta pra uma melhor sem uns goles do santo malte escocês.
Uma tal Maria Margarida (pseudônimo) foi outra que não se arvorou a mimosear Laert. Ela só revelou que fez faculdade com o atual prefeito e que o adora desde àquela época. Maria Margarida, senti nas entrelinhas das suas poucas palavras que o ‘number one’ desta Sanja, num passado remoto, já foi torpedeado por correios-elegantes da sua lavra. Tô errado?
Leitor anônimo quer regalar Laert com duas dúzias do desodorante Avanço. Justifica o oculto missivista: “só assim pra ele sentir o cheiro do povo.” O escriba adorou a idéia e quer incluir no pacote um punhado de sabonetes Rexona.
Outro leitor que não quer se identificar declara: “Laert é homem fino, que bebe vinho, usa suéter e lê clássicos da literatura. Eu daria um tempero cômico na sua circunspecta biblioteca e o presentearia com uma deliciosa coletânea de crônicas do Veríssimo: ‘As Mentiras que os Homens Contam’”. Sem comentários, prezado e maldoso bibliófilo.
Nelsinho Nicolau
O prefeito eleito ainda não é vidraça. Por isso, acredito, poucos arriscaram a presenteá-lo. E estes poucos sugeriram mimos-metáfora com inequívocas tonalidades pastel. Aos que urram com um bom vermelho-sangue, minhas sinceras desculpas.
Um saco cheio de disposição e ferramentas para melhorar a cidade, sugere o mesmo leitor que quer deportar Laert pro gélido norte da Rússia. Tudo bem, amigo leitor, desde que entre as ferramentas não haja nenhuma espingardinha de abater tucanos. O Turquinho, convenhamos, é homem de paz.
Meu amigo Vardão quer ofertar ao Turquinho uma varinha de condão para que ele realize as promessas de campanha. Concordo, honrado Vardão e, colorindo o cinza, bem poderia esta mágica varinha chegar nas mãos de uma fada bem gostosa. Né não, Vardão?



